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LIVRO DE JUÍZES: a crise moral de Israel

O livro de Juízes recebe esse nome em virtude dos líderes militares e civis levantados por Deus para livrar Israel de seus opressores. O título hebraico traduzido por Juízes é seguido por versões antigas e modernas.
Os juízes não tinham formação oficial para julgar disputas legais como a palavra juiz dá hoje a entender. Eles eram líderes dotados pelo Espírito, escolhidos por Deus para tarefas específicas. Dois dos líderes, Otniel e Eúde, são descritos como “libertadores”. Só Gideão não é chamado juiz ou libertador, mas se diz que livrou Israel. Em um caso, o Senhor é descrito como “juiz”.
O livro de Juízes não revela sua autoria. A tradição judaica de que Samuel escreveu o livro não pode ser comprovada. Alguns estudiosos crêem, porém, que Samuel é o que melhor se adapta às evidências do livro.

É provável que o livro tenha sido compilado durante o início da monarquia. As fontes do livro foram reunidas de maneira gradual, em vários estágios, para formar um todo unificado. Alguns estudiosos têm questionado a integridade literária e teológica do livro. Mas as fontes de composição do livro não são relatos conflitantes. Antes, mantêm uma unidade temática e uma perspectiva teológica complementar.
Estrutura do livro
1. Introdução geral ao período dos juízes, 1.1-3.6.
a) Os israelitas se estabelecem em Canaã
b) Síntese histórica do período do juízes
2. Os juízes de Israel, 3.7-16.31.
a) De Otniel a Sangar,
b) Débora, a profetisa,
c) Gideão e Abimeleque,
d) Tola e Jair,
e) Jefté,
f) De Ibsã a Abdom, e g) Sansão,
3. Apêndices, 17-21.
a) O sacerdote Mica e os danitas
b) O levita e a sua concubina,
c) A guerra contra os benjamitas.
O Tema
A desobediência de Israel resultava em opressão nas mãos de povos vizinhos. Tal opressão levava Israel a clamar ao Senhor, pedindo socorro. Deus respondia ao arrependimento e aos clamores de Israel por misericórdia, enviando juízes ou libertadores.
Conteúdo do livro
Os acontecimentos registrados no livro de Juízes estão intimamente relacionados aos dos tempos de Josué. Uma vez que os cananeus não tinham sido totalmente desalojados e a ocupação de Israel não era completa, similares condições continuaram no período dos Juízes.
Em conseqüência, o estado de guerra continuou em zonas locais ou em cidades que foram ocupadas de novo no curso do tempo. Referências tais como as citadas em Juízes 1.1; 2.6-10 e 20.26-28 parecem indicar que os acontecimentos em Josué e Juízes estão intimamente relacionados cronologicamente ou que são, inclusive, sincrônicos.
A cronologia deste período é difícil de discernir. Israel não tinha capital política nos dias
dos juízes. Siló, que foi estabelecido como centro religioso nos dias de Josué (Js 18.1), continuou como tal nos dias de Eli (1 Samuel 1.3). já que Israel não tinha rei (Juízes 17.6; 18.1; 19.1; 21.25), não existia uma praça central onde um juiz pudesse oficiar.
Aqueles juízes intervinham em lugares de liderança, segundo a situação local ou nacional pudesse demandar. A influência e o reconhecimento de muitos deles estava indubitavelmente limitado a sua comunidade local ou tribo. Alguns deles eram líderes militares que libertaram os israelitas do inimigo opressor, enquanto que outros foram reconhecidos como magistrados aos que o povo se dirigia para decisões políticas ou de caráter legal. Sem ter um governo central, nem capital, as tribos israelitas foram governadas espasmodicamente sem imediata sucessão, quando um dos juízes falecia. Com alguns dos juízes restringidos a zonas locais, é também razoável supor que várias judicaturas se superpuseram. A anotação "Naqueles dias não havia rei em Israel; porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos" (Jz 21.25, ACF) descreve claramente as
características que prevaleceram na totalidade do período dos Juízes.
O versículo que serve de abertura a Juízes sugere que este livro tem relação com os
acontecimentos que tiveram lugar após a morte de Josué. O relato de Juízes 2.6-10 pode apoiar a idéia de que alguns desses acontecimentos se referem em parte à conquista de certas cidades sob o mando de Josué. A conquista de Hebrom em Jz 1.10-
15 pode colocar-se como paralelo ao relato de Josué 15.14-19. Embora Josué havia derrotado as principais forças da oposição quando conduzia Israel rumo a Canaã e dividiu a terra nas diversas tribos, muitos locais permaneceram em mãos dos cananeus e outros habitantes. Quando Israel foi o suficiente forte, quis forçar aquelas gentes ao trabalho e a pagarem tributos; mas fracassaram em seu propósito de expulsá-los fora da terra.
Conseqüentemente, os amorreus, cananeus e outros permaneceram na terra que tinha sido entregue por completo a Israel para sua possessão e ocupação. Teria parecido completamente natural que, quando Israel se tiver debilitado, aquelas pessoas voltassem a tomar possessão de suas terras, cidades e povoados que Israel uma vez tinha conquistado deles (ver Juízes 1.34). A ocupação parcial da terra deixou Israel em permanentes dificuldades. Mediante a fraternização com os habitantes, os israelitas participaram no culto a Baal, conforme apostatavam do culto a Deus. Os povos particularmente mencionados de serem os culpados de que Israel se afastasse de Deus, foram os cananeus, os heteus, os amorreus, os perizeus, os heveus e os jebuseus. Durante este período de apostasia, os matrimônios mistos conduziram a maiores abandonos no serviço e verdadeiro culto a Deus. no curso de uma geração, o populacho de Israel chegou a ser tão idólatra que as bênçãos prometidas por Deus através de Moisés e Josué foram retiradas. Ao renderem culto a Baal, os israelitas romperam com o primeiro mandamento do Decálogo.
O juízo chegou em forma de opressão, e os invasores levaram vantagem dos israelitas, arrebatando-lhes suas propriedades e colheitas. Quando a situação chegou a fazer-se insuportável, se desesperaram o bastante como para voltar-se para Deus. O arrependimento foi o seguinte passo deste ciclo. Conforme os israelitas perdiam sua independência e se submetiam à opressão, reconheceram que estavam sofrendo as conseqüências de sua desobediência a Deus. Quando se conscientizaram de seu pecado, se voltaram para Deus em penitência. Sua chamada não foi em vão.
A libertação chegou através de campeões que Deus enviou para desafiar os opressores. Chefes militares que conduziram os israelitas a atacar o inimigo, foram, como notáveis, Otniel, Eúde, Sangar, Débora e Baraque, Gideão, Jefté e Sansão. Especialmente dotados com uma divina capacidade, aqueles chefes rejeitaram os inimigos e Israel de novo gozou de um período de paz e tranqüilidade. Estes ciclos religioso-políticos se sucederam freqüentemente nos dias dos Juízes. O pecado, a tristeza, a súplica e a salvação eram coisa corriqueira. Cada geração, aparentemente, tinha bastante gente que era ciente da possibilidade de assegurar-se o favor de Deus e suas bênçãos, e a idolatria era repelida, restaurando-se a adesão aos preceitos de Deus, que ficavam assim instaurados.
Os últimos capítulos do livro de Juízes e o livro de Rute descrevem as condições que existiam nos dias dos heróicos chefes, tais como Débora, Gideão e Sansão.
Propósito e teologia
1. O livro de Juízes continua a desenvolver a história da vida de Israel na terra prometida a seus pais. Enquanto o livro de Josué descreve a fidelidade e o sucesso de Israel, Juízes retrata a apostasia de Israel em relação à aliança e a opressão resultante nas mãos de seus vizinhos (2.6,7, 10-16). O autor conta eventos do começo da vida de Israel para alertar sua própria geração quanto às conseqüências da desobediência.
2. O livro explica por que Israel sofreu com os inimigos (6.13). A falta estava no pecado de Israel, não na falha de Deus em manter as promessas de sua aliança. Deus era longânimo e misericordioso, ainda que o povo repetidas vezes se esquecesse dele e cultuasse os deuses de Canaã (2.2,3, 10-14, 20,21). O livro ainda explica que Deus manteve as nações nas imediações de Israel para testar a fidelidade de Israel (2.22,23; 3.4) Israel também devia aprender a disciplina por meio das guerras (3.1-3).
3. O livro também demonstra que Deus responsabilizava Israel por seu comportamento
moral e religioso. Embora fosse eleito por Deus e receptor das promessas de Deus, o povo não gozaria da benção daquela posição privilegiada se continuasse em pecado (2.1-15’9.56,57; 10.11-16).
4. O livro mostra que o Senhor, não as divindades cananéias, é o Deus da história e da salvação. Ele é o verdadeiro “Juiz” que colocava Israel nas mãos dos inimigos e, então, por seu Espírito, dotava libertadores para lhes dar vitória sobre os opressores. Por meio de intervenções miraculosas na história e na natureza, Deus cumpriu seus propósitos para com Israel (2.16-18; 3.9,10, 15; 4.15; 6.34; 7.22; 11.29; 14.6, 19; 15.14).
5. Uma importante questão enfrentada pelo autor era a liderança da nação. O livro de Juízes ilustra o tipo de decadência moral que ocorria quando havia ausência de liderança piedosa. Havia um declínio na condição espiritual dos próprios juízes como cada ciclo descreve o juiz e sua época. Sansão, o ultimo juiz do livro, era a personificação da imoralidade do período. O livro mostra o que acontecia a Israel quando não havia um rei piedoso para lidera-lo. Desse modo, o livro defende a instituição da monarquia. Ela, porém, deve ser uma monarquia caracterizada pela piedade. Sem liderança piedosa, o povo se desviava do padrão objetivo da palavra de Deus, e “cada qual fazia o que achava mais reto” (17.6; 18.1; 19.1; 21.25).
6. O livro de Juízes também mostra o poder da fé e da oração. O autor de Hebreus reconheceu que os juízes realizaram suas façanhas por intermédio da fé em Deus Hb 11.32,33).10
Mensagem para hoje
Sempre que um juiz falecia, os israelitas enfrentavam o declínio e o fracasso, porque comprometiam seu maior alvo espiritual de várias formas. Abandonaram seu propósito de expulsar todos os povos da terra e adotaram os costumes dos que os cercavam. A sociedade possui muitas recompensas para oferecer aos que comprometem sua fé. Riquezas, aceitação, reconhecimento, poder e influência. Quando Deus nos dá uma missão, ela não deve ser poluída pelo desejo de aprovação do mundo. Os nossos olhos devem estar fixos em Cristo, que é o nosso Juiz e Libertador.
O valor ético
O livro de Juízes apresenta Javé como o Senhor da história. Como tal, Deus empregou povos estrangeiros para testar a lealdade de Israel a Deus e para punir a idolatria. Testar e punir não eram, porém, os alvos maiores de Deus em relação a Israel. Quando o povo de Deus se arrependia e clamava a Deus por auxílio, Deus fazia o que estava em seu coração – levantava libertadores para salvar seu povo. A salvação é o alvo para o qual Deus dirigia e dirige a história.
Como Senhor da história, Deus era livre para escolher qualquer pessoa para atuar como libertador. Do ponto de vista humano, as escolhas divinas são surpreendentes: um assassino (Eúde), uma mulher (Débora), um covarde de família insignificante (Gideão), o temerário filho de uma prostituta (Jefté) e um mulherengo (Sansão). Muitos desses libertadores escolhidos possuíam deficiências morais nítidas. Ainda assim, Deus os usou para salvar seu povo. É verdade que os cristãos são chamados a fazer o máximo para serem santos (Hb 12.14). Mas Deus e soberano e livre para usar qualquer pessoa que escolha para cumprir seus propósitos salvadores. O pecado humano precisa de governos que imponham a moralidade. No dias dos juízes, quando não havia rei, “cada um fazia o que achava mais reto” (21.25). Os governos recebem de Deus a responsabilidade de punir o erro (Rm 13.3-5). A história posterior de Israel revela, porém, que o simples fato de ter um rei não era a solução para o fracasso moral de Israel. Aliás, os reis de Israel e Judá levaram muitas vezes o povo de Deus a tos de desobediência ainda maiores. O mais necessário não era a aliança de Deus imposta de fora, mas escrita no coração de seu povo (Jr 31.31-34).
Em direção ao Novo Testamento
Que coleção de seres humanos encontramos no livro de Juízes! São eles estranhos heróis; o fazendeiro relutante, uma profetisa, um assassino canhoto, um bandido bastardo, um nazireu viciado em sexo, entre outros. É fácil apontar, à distância, as excentricidades e fracassos dos principais personagens dessa narrativa em espiral descendente. Mas, para que não nos julguemos muito superiores, Paulo nos lembra:
“Tais fostes alguns de vós” (1 Co 6.11). Com semelhante misto de ignorância, fraca obediência e motivos confusos, nós, como eles, fomos “lavados, santificados e justificados” pela graça de Deus.
Através de todas as suas falhas, aprendemos de sua fé. Pois foram Gideão, Baraque, Jefté e Sansão, que, “por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas”, Hb 11.32-3312.
Onde ler mais!
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras. Vol. 2 Josué- Ester. São Paulo: Vida Nova, 1993.
CUNDALL, Arthur E. Juízes e Rute: introdução e comentário. SP: Mundo Cristão, 1986 (Série Cultura Bíblica: 7).

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