segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Parábola do crescimento espontâneo

Parábola do crescimento espontâneo – ou Parábola da Semente: (Mc 4:26-29)
Somente Marcos nos apresenta essa parábola, sendo-lhe exclusiva. Campbell Morgan acredita que foi a sua primeira parábola, ao começar a falar aos seus discípulos em parábolas.
O reino de Deus, em contraste com os reinos governados pelos homens, significa o seu domínio, o seu reinado, o seu triunfo sobre todas as atividades humanas. Mas para que a sua colheita possa chegar, é necessário que, primeiro, a semente seja semeada. Olhemos agora para a parábola e vamos nos empenhar em entender as partes que a formam.
Em primeiro lugar, há:
Semeador. Quem é esse homem mencionado na parábola? O homem que lança a semente representa todos os que Deus usa no estabelecimento de seu reino dentro do coração dos homens e no mundo.
Semente. Não há dúvida de que é a Palavra de Deus, cuja energia, secreta e invisível, pode tornar os homens "filhos do reino". A Bíblia era em primeiro lugar uma erva, no Pentateuco; uma espiga, no AT; e um grão cheio na espiga, no NT que revela completamente a mente de Deus ao seu povo. Todas as verdades da Palavra são usadas por Deus na formação e completa realização de seu reino.
Solo. Aqui o solo é o mesmo que na Parábola do semeador, ou seja, o coração humano. Por "reino" subentende-se súditos formados através da obediência à palavra do Rei, a qual foi semeada nos corações deles. O solo não pode semear nem colher, mas pode receber e alimentar a semente, suprindo-a de todos os nutrientes que ele (o solo) possui, até que finalmente chegue a hora da colheita. O reino de Deus começa no coração que ele conquista.
Mistério do crescimento. E bem evidente a condição humana do semeador que, após semear o grão, dorme, levanta-se de noite e de dia, e não sabe como a semente brota e cresce. Após o simples ato de lançar a semente ao solo, ele continua e repetidamente dorme e levanta-se enquanto o grão germina. A expressão "por si mesma" revela ação por si própria, e é um termo usado apenas aqui e em Atos 12:10, onde diz que a porta de ferro que dava para a cidade se lhes abriu por si mesma. O vocábulo no texto original é automate, do qual temos o termo automático. As coisas do reino de Deus prosseguem, a despeito dos demônios e dos homens.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

LIVRO DE JUÍZES: a crise moral de Israel

O livro de Juízes recebe esse nome em virtude dos líderes militares e civis levantados por Deus para livrar Israel de seus opressores. O título hebraico traduzido por Juízes é seguido por versões antigas e modernas.
Os juízes não tinham formação oficial para julgar disputas legais como a palavra juiz dá hoje a entender. Eles eram líderes dotados pelo Espírito, escolhidos por Deus para tarefas específicas. Dois dos líderes, Otniel e Eúde, são descritos como “libertadores”. Só Gideão não é chamado juiz ou libertador, mas se diz que livrou Israel. Em um caso, o Senhor é descrito como “juiz”.
O livro de Juízes não revela sua autoria. A tradição judaica de que Samuel escreveu o livro não pode ser comprovada. Alguns estudiosos crêem, porém, que Samuel é o que melhor se adapta às evidências do livro.

É provável que o livro tenha sido compilado durante o início da monarquia. As fontes do livro foram reunidas de maneira gradual, em vários estágios, para formar um todo unificado. Alguns estudiosos têm questionado a integridade literária e teológica do livro. Mas as fontes de composição do livro não são relatos conflitantes. Antes, mantêm uma unidade temática e uma perspectiva teológica complementar.
Estrutura do livro
1. Introdução geral ao período dos juízes, 1.1-3.6.
a) Os israelitas se estabelecem em Canaã
b) Síntese histórica do período do juízes
2. Os juízes de Israel, 3.7-16.31.
a) De Otniel a Sangar,
b) Débora, a profetisa,
c) Gideão e Abimeleque,
d) Tola e Jair,
e) Jefté,
f) De Ibsã a Abdom, e g) Sansão,
3. Apêndices, 17-21.
a) O sacerdote Mica e os danitas
b) O levita e a sua concubina,
c) A guerra contra os benjamitas.
O Tema
A desobediência de Israel resultava em opressão nas mãos de povos vizinhos. Tal opressão levava Israel a clamar ao Senhor, pedindo socorro. Deus respondia ao arrependimento e aos clamores de Israel por misericórdia, enviando juízes ou libertadores.
Conteúdo do livro
Os acontecimentos registrados no livro de Juízes estão intimamente relacionados aos dos tempos de Josué. Uma vez que os cananeus não tinham sido totalmente desalojados e a ocupação de Israel não era completa, similares condições continuaram no período dos Juízes.
Em conseqüência, o estado de guerra continuou em zonas locais ou em cidades que foram ocupadas de novo no curso do tempo. Referências tais como as citadas em Juízes 1.1; 2.6-10 e 20.26-28 parecem indicar que os acontecimentos em Josué e Juízes estão intimamente relacionados cronologicamente ou que são, inclusive, sincrônicos.
A cronologia deste período é difícil de discernir. Israel não tinha capital política nos dias
dos juízes. Siló, que foi estabelecido como centro religioso nos dias de Josué (Js 18.1), continuou como tal nos dias de Eli (1 Samuel 1.3). já que Israel não tinha rei (Juízes 17.6; 18.1; 19.1; 21.25), não existia uma praça central onde um juiz pudesse oficiar.
Aqueles juízes intervinham em lugares de liderança, segundo a situação local ou nacional pudesse demandar. A influência e o reconhecimento de muitos deles estava indubitavelmente limitado a sua comunidade local ou tribo. Alguns deles eram líderes militares que libertaram os israelitas do inimigo opressor, enquanto que outros foram reconhecidos como magistrados aos que o povo se dirigia para decisões políticas ou de caráter legal. Sem ter um governo central, nem capital, as tribos israelitas foram governadas espasmodicamente sem imediata sucessão, quando um dos juízes falecia. Com alguns dos juízes restringidos a zonas locais, é também razoável supor que várias judicaturas se superpuseram. A anotação "Naqueles dias não havia rei em Israel; porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos" (Jz 21.25, ACF) descreve claramente as
características que prevaleceram na totalidade do período dos Juízes.
O versículo que serve de abertura a Juízes sugere que este livro tem relação com os
acontecimentos que tiveram lugar após a morte de Josué. O relato de Juízes 2.6-10 pode apoiar a idéia de que alguns desses acontecimentos se referem em parte à conquista de certas cidades sob o mando de Josué. A conquista de Hebrom em Jz 1.10-
15 pode colocar-se como paralelo ao relato de Josué 15.14-19. Embora Josué havia derrotado as principais forças da oposição quando conduzia Israel rumo a Canaã e dividiu a terra nas diversas tribos, muitos locais permaneceram em mãos dos cananeus e outros habitantes. Quando Israel foi o suficiente forte, quis forçar aquelas gentes ao trabalho e a pagarem tributos; mas fracassaram em seu propósito de expulsá-los fora da terra.
Conseqüentemente, os amorreus, cananeus e outros permaneceram na terra que tinha sido entregue por completo a Israel para sua possessão e ocupação. Teria parecido completamente natural que, quando Israel se tiver debilitado, aquelas pessoas voltassem a tomar possessão de suas terras, cidades e povoados que Israel uma vez tinha conquistado deles (ver Juízes 1.34). A ocupação parcial da terra deixou Israel em permanentes dificuldades. Mediante a fraternização com os habitantes, os israelitas participaram no culto a Baal, conforme apostatavam do culto a Deus. Os povos particularmente mencionados de serem os culpados de que Israel se afastasse de Deus, foram os cananeus, os heteus, os amorreus, os perizeus, os heveus e os jebuseus. Durante este período de apostasia, os matrimônios mistos conduziram a maiores abandonos no serviço e verdadeiro culto a Deus. no curso de uma geração, o populacho de Israel chegou a ser tão idólatra que as bênçãos prometidas por Deus através de Moisés e Josué foram retiradas. Ao renderem culto a Baal, os israelitas romperam com o primeiro mandamento do Decálogo.
O juízo chegou em forma de opressão, e os invasores levaram vantagem dos israelitas, arrebatando-lhes suas propriedades e colheitas. Quando a situação chegou a fazer-se insuportável, se desesperaram o bastante como para voltar-se para Deus. O arrependimento foi o seguinte passo deste ciclo. Conforme os israelitas perdiam sua independência e se submetiam à opressão, reconheceram que estavam sofrendo as conseqüências de sua desobediência a Deus. Quando se conscientizaram de seu pecado, se voltaram para Deus em penitência. Sua chamada não foi em vão.
A libertação chegou através de campeões que Deus enviou para desafiar os opressores. Chefes militares que conduziram os israelitas a atacar o inimigo, foram, como notáveis, Otniel, Eúde, Sangar, Débora e Baraque, Gideão, Jefté e Sansão. Especialmente dotados com uma divina capacidade, aqueles chefes rejeitaram os inimigos e Israel de novo gozou de um período de paz e tranqüilidade. Estes ciclos religioso-políticos se sucederam freqüentemente nos dias dos Juízes. O pecado, a tristeza, a súplica e a salvação eram coisa corriqueira. Cada geração, aparentemente, tinha bastante gente que era ciente da possibilidade de assegurar-se o favor de Deus e suas bênçãos, e a idolatria era repelida, restaurando-se a adesão aos preceitos de Deus, que ficavam assim instaurados.
Os últimos capítulos do livro de Juízes e o livro de Rute descrevem as condições que existiam nos dias dos heróicos chefes, tais como Débora, Gideão e Sansão.
Propósito e teologia
1. O livro de Juízes continua a desenvolver a história da vida de Israel na terra prometida a seus pais. Enquanto o livro de Josué descreve a fidelidade e o sucesso de Israel, Juízes retrata a apostasia de Israel em relação à aliança e a opressão resultante nas mãos de seus vizinhos (2.6,7, 10-16). O autor conta eventos do começo da vida de Israel para alertar sua própria geração quanto às conseqüências da desobediência.
2. O livro explica por que Israel sofreu com os inimigos (6.13). A falta estava no pecado de Israel, não na falha de Deus em manter as promessas de sua aliança. Deus era longânimo e misericordioso, ainda que o povo repetidas vezes se esquecesse dele e cultuasse os deuses de Canaã (2.2,3, 10-14, 20,21). O livro ainda explica que Deus manteve as nações nas imediações de Israel para testar a fidelidade de Israel (2.22,23; 3.4) Israel também devia aprender a disciplina por meio das guerras (3.1-3).
3. O livro também demonstra que Deus responsabilizava Israel por seu comportamento
moral e religioso. Embora fosse eleito por Deus e receptor das promessas de Deus, o povo não gozaria da benção daquela posição privilegiada se continuasse em pecado (2.1-15’9.56,57; 10.11-16).
4. O livro mostra que o Senhor, não as divindades cananéias, é o Deus da história e da salvação. Ele é o verdadeiro “Juiz” que colocava Israel nas mãos dos inimigos e, então, por seu Espírito, dotava libertadores para lhes dar vitória sobre os opressores. Por meio de intervenções miraculosas na história e na natureza, Deus cumpriu seus propósitos para com Israel (2.16-18; 3.9,10, 15; 4.15; 6.34; 7.22; 11.29; 14.6, 19; 15.14).
5. Uma importante questão enfrentada pelo autor era a liderança da nação. O livro de Juízes ilustra o tipo de decadência moral que ocorria quando havia ausência de liderança piedosa. Havia um declínio na condição espiritual dos próprios juízes como cada ciclo descreve o juiz e sua época. Sansão, o ultimo juiz do livro, era a personificação da imoralidade do período. O livro mostra o que acontecia a Israel quando não havia um rei piedoso para lidera-lo. Desse modo, o livro defende a instituição da monarquia. Ela, porém, deve ser uma monarquia caracterizada pela piedade. Sem liderança piedosa, o povo se desviava do padrão objetivo da palavra de Deus, e “cada qual fazia o que achava mais reto” (17.6; 18.1; 19.1; 21.25).
6. O livro de Juízes também mostra o poder da fé e da oração. O autor de Hebreus reconheceu que os juízes realizaram suas façanhas por intermédio da fé em Deus Hb 11.32,33).10
Mensagem para hoje
Sempre que um juiz falecia, os israelitas enfrentavam o declínio e o fracasso, porque comprometiam seu maior alvo espiritual de várias formas. Abandonaram seu propósito de expulsar todos os povos da terra e adotaram os costumes dos que os cercavam. A sociedade possui muitas recompensas para oferecer aos que comprometem sua fé. Riquezas, aceitação, reconhecimento, poder e influência. Quando Deus nos dá uma missão, ela não deve ser poluída pelo desejo de aprovação do mundo. Os nossos olhos devem estar fixos em Cristo, que é o nosso Juiz e Libertador.
O valor ético
O livro de Juízes apresenta Javé como o Senhor da história. Como tal, Deus empregou povos estrangeiros para testar a lealdade de Israel a Deus e para punir a idolatria. Testar e punir não eram, porém, os alvos maiores de Deus em relação a Israel. Quando o povo de Deus se arrependia e clamava a Deus por auxílio, Deus fazia o que estava em seu coração – levantava libertadores para salvar seu povo. A salvação é o alvo para o qual Deus dirigia e dirige a história.
Como Senhor da história, Deus era livre para escolher qualquer pessoa para atuar como libertador. Do ponto de vista humano, as escolhas divinas são surpreendentes: um assassino (Eúde), uma mulher (Débora), um covarde de família insignificante (Gideão), o temerário filho de uma prostituta (Jefté) e um mulherengo (Sansão). Muitos desses libertadores escolhidos possuíam deficiências morais nítidas. Ainda assim, Deus os usou para salvar seu povo. É verdade que os cristãos são chamados a fazer o máximo para serem santos (Hb 12.14). Mas Deus e soberano e livre para usar qualquer pessoa que escolha para cumprir seus propósitos salvadores. O pecado humano precisa de governos que imponham a moralidade. No dias dos juízes, quando não havia rei, “cada um fazia o que achava mais reto” (21.25). Os governos recebem de Deus a responsabilidade de punir o erro (Rm 13.3-5). A história posterior de Israel revela, porém, que o simples fato de ter um rei não era a solução para o fracasso moral de Israel. Aliás, os reis de Israel e Judá levaram muitas vezes o povo de Deus a tos de desobediência ainda maiores. O mais necessário não era a aliança de Deus imposta de fora, mas escrita no coração de seu povo (Jr 31.31-34).
Em direção ao Novo Testamento
Que coleção de seres humanos encontramos no livro de Juízes! São eles estranhos heróis; o fazendeiro relutante, uma profetisa, um assassino canhoto, um bandido bastardo, um nazireu viciado em sexo, entre outros. É fácil apontar, à distância, as excentricidades e fracassos dos principais personagens dessa narrativa em espiral descendente. Mas, para que não nos julguemos muito superiores, Paulo nos lembra:
“Tais fostes alguns de vós” (1 Co 6.11). Com semelhante misto de ignorância, fraca obediência e motivos confusos, nós, como eles, fomos “lavados, santificados e justificados” pela graça de Deus.
Através de todas as suas falhas, aprendemos de sua fé. Pois foram Gideão, Baraque, Jefté e Sansão, que, “por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas”, Hb 11.32-3312.
Onde ler mais!
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras. Vol. 2 Josué- Ester. São Paulo: Vida Nova, 1993.
CUNDALL, Arthur E. Juízes e Rute: introdução e comentário. SP: Mundo Cristão, 1986 (Série Cultura Bíblica: 7).

terça-feira, 14 de setembro de 2010

MARCOS: O Evangelho do Servo do Senhor

O Evangelho de Marcos começa dizendo que o assunto do livro é a boa notícia a respeito de Jesus Cristo, isto é, o Evangelho, anúncio de o tempo de Deus trazer salvação para a humanidade chegou.
Estrutura do livro

1. Prólogo temático: O evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus (1.1-15)
a) início do evangelho (1.1)
b) a pregação de João Batista (1.2-8)
c) a tentação de Jesus no deserto (1.12,13)
d) o início da proclamação de Jesus (1.14,15)
2. Jesus invade o deserto e a cidade com as boas-novas (1.16-8.26)
a) o ministério inaugural de Jesus na Galiléia (1.16-3.6)
b) o ministério itinerante (3.7-6.29)
c) Jesus e retira para o deserto além da Galiléia (6.30-7.23)
d) a missão dos gentios (7.24-8.10)
e) questões relativas a sinais e visões (8.11-26)
3. Jesus invade a cidade hostil de Jerusalém (8.27-15.47)
a) a viagem a Jerusalém, (.8.27-15.47)
b) Jesus enfrenta Jerusalém (11.1-13.37)
c) Jerusalém se opõe a Jesus (14.1-15.47)
4. O epílogo inacabado (16.1-8)1
O Tema

O primeiro propósito de Marcos é apresentar por escrito o testemunho dos apóstolos a respeito dos fatos da vida, morte e ressurreição de Jesus. Marcos não pretende escrever uma biografia completa ou mesmo um relato completo do ministério público de Jesus. O registro histórico é simplificado adaptando-se à estrutura básica da proclamação do Evangelho: o início do ministério de Jesus com João Batista, o ministério público de Jesus na Galiléia e nas regiões circunvizinhanças; e sua jornada final a Jerusalém para o sacrifício na cruz. Segundo o Evangelho de João, Jesus fez pelo menos cinco visitas a Jerusalém. Mateus e Lucas registram mais dos ensinamentos de Jesus do que Marcos, mas o objetivo de Marcos é diferente. Usando detalhes históricos, apresenta uma narrativa ampla do que os apóstolos pregavam a respeito da cruz de Cristo (At 1.21-22; 2.22-24; 1 Co 2.2)2
Conteúdo do livro

Marcos não fala dos primeiros trinta anos da vida de Jesus, mas esses anos todos foram necessários à sua preparação humana para a obra que teria de realizar. Esse evangelho começa com João Batista preparando o povo para a vinda do Messias (1.2). João e Jesus encontraram-se. Ele logo reconheceu que esse Homem não precisava submeter-se ao batismo de arrependimento que pregava (Mt 3.14). Após ser batizado “o Espírito o impeliu para o deserto” (Mc 1.12). A seguir do capítulo 1.14 ao 8.30 temos um registro ininterrupto de ações de Jesus, tanto em palavras quanto através de milagres:
* demônios expulsos, 1.21-28
* a febre repreendida, 1.29-31
* várias doenças curadas, 1.32-34
* leprosos purificados, 1.40-45
* um paralítico anda, 2.1-12
* a cura da mão ressequida
* multidões curadas, 3.6-12
* a tempestade apaziguada, 4.35-41
* um endemoninhado liberto, 5.1-15
* fluxo de sangue estancado, 5.21-34
* a filha de Jairo ressuscitada, 5.35-43
* cinco mil alimentados, 6.32-44
* Jesus anda por sobre as águas, 6.45-51
* todos os que o tocam são curados, 6.53-56
* surdos e mudos ouvem e falam, 7.31-37
* quatro mil são alimentados, 8.1-9
* o cego curado, 8.22-26

A sequência de atos e palavras de Jesus, na descrição de Marcos, é seguida pela declaração petrina a respeito de quem era o Cristo (8.29). Após a declaração de Pedro, Marcos revela o modo pelo qual o Servo deveria ser recebido: “era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas” (8.31). E segue-se um relato dos acontecimentos seguintes:
* Jesus seria rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, 8.31
* Seria entregue por traição,9.31
* Seria morto pelos romanos, 10.32-45
* Iria ressuscitar no terceiro dia, 9.31

Depois do ministério público de Cristo, descrito em Mc 10.46-11.26, lemos a respeito de seu último conflito com autoridades judaicas e de seu triunfo sobre os líderes religiosos, 11.27-12.44. Jesus procurou persuadir os judeus como Messias. Depois que Jesus respondeu a todos eles, lemos: “E já ninguém mais ousava a interrogá-lo”, 12.34.

Antes de Jesus ir para a cruz, revela o futuro aos conturbados discípulos em seu discurso no monte das Oliveiras (cap. 13).

A trama os principais sacerdotes para apanhá-lo astuciosamente e o matarem e a unção do seu corpo para a sepultura abrem o cap. 14. Em seguida, vem a história sempre triste da traição por parte de um dos discípulos (14.10,11); a celebração da Páscoa e a instituição da ceia do Senhor estão comprimidas em 25 breves versículos. Acrescentado o insulto à injúria, lemos a negação de Pedro (14.26-31, 66-71).

Depois que o Servo deu a vida em resgate por muitos, ressuscitou dos mortos. Vem em seguida a Grande Comissão (16.15), também registrada em Mateus 28.19, 20. Finalmente, foi recebido no céu para sentar-se à destra de Deus, 16.19.
Formas literárias

Antes de Marcos, os primeiros cristãos transmitiam oralmente a história de Jesus, contando histórias isoladas, pequenas coleções de declarações de Jesus e narrativas mais longas, como a da paixão. Marcos foi provavelmente o primeiro cristão a escrever um evangelho, não uma mera biografia, mas um estudo extenso do significado da vida e da ressurreição de Jesus para os crentes. A maioria dos estudiosos pensa que Mateus e Lucas, que escreveram entre dez e vinte anos mais, basearam seus evangelhos no de Marcos.

Uma particularidade de Marcos é o seu estilo rápido de aventura (“imediatamente” é usado seis vezes, e “logo”, trinta e uma vezes). Também destaca-se seu uso de linguagem sem floreios (“viu os céus 'rasgarem-se'”, 1.10; “ o Espírito o impeliu para o deserto, 1.12”). A ênfase que ele dá a humanidade de Jesus, também é bastante singular, 1.41; 3.5; 4.38; 6.6; 11.12; 14.33) e sua ênfase na dificuldade em ser discípulo.
Propósito e teologia

Somente Jesus Cristo é o Filho de Deus. No livro de Marcos, a divindade de Jesus é demonstrada por meio de seu poder, que o fez vencer as enfermidades, o Diabo e morte. Embora tivesse o poder para reinar na terra, Ele preferiu obedecer ao Pai e morrer por nós.

Jesus cumpriu as profecias do Antigo Testamento ao vir à terra como Messias. Ele não veio como um rei conquistador, mas como um servo. Ajudeou as pessoas, curando-as e falando-lhes a respeito de Deus. Além disso, ao dar sua vida em sacrifício para apagar nossos pecados, realizou o maior serviço em prol da humanidade. Seus milagres foram mais enfatizados do que os seus sermões, a fim de demonstrar que Ele é um homem de poder e ação, não apenas de palavras. Jesus fez milagres para convencer as pessoas sobre quem realmente era e para confirmar aos seus discípulos suas verdadeira identidade: Deus.

Primeiro Jesus pregou sua mensagem aos judeus. Mas, quando os líderes judaicos se lhe opuseram, jesus também se dirigiu ao mundo gentílico, pregando as Boas Novas do Reino e curando. Soldados romanos, sírios e outros gentios ouviram o evangelho. Muitos creram e seguiram-no. A mensagem final de Jesus aos seus discípulos os desafiou a dirigirem-se ao mundo inteiro, a fim de pregar o evangelho da salvação.
- Mensagem para hoje

Quando o Senhor Jesus ressuscitou dos mortos, provou que é Deus, pode perdoar os pecados e tem o poder para mudar nossa vida. Confiando em seu perdão, podemos iniciar uma nova vida ao seu lado, e o fizermos nosso guia. Por causa do exemplo de Jesus, também devemos estar dispostos a servir a Deus e a nossos semelhantes. A verdadeira grandeza do Reino de Cristo pode ser vista no serviço e no sacrifício que Ele realizou. A ambição e o amor ao poder ou à posição não devem ser as nossas motivações; devemos fazer a obra de Deus por amor a Ele.

Quando mais nos convencermos de que Jesus é Deus, mais o seu poder e amor se tornarão evidentes para nós. As poderosas obrade Jesus nos mostram que Ele é capaz de salvar quaisquer pessoas, a despeito do passado delas. Seus milagres e seu perdão trazem a cura e o completo bem-estar, transformando a vida daqueles que nEle confiam.
Onde ler mais!

HENDRIKSEN, William. Exposição do Evangelho de Marcos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, 880 p. (Comentário do Novo Testamento).

JENSEN, Irving L. Marcos: estudo bíblico. São Paulo: Mundo Cristão, 1984. 118 p. (Série Mundo Cristão).

MULHOLLAND, Dewey M. Marcos: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005, 240 p. (Série Cultura Bíblica, v. 2).

INTRODUÇÃO ÀS PARÁBOLAS DOS EVANGELHOS

O termo parábola significa literalmente comparação. É fazer uma comparação. Os dois elementos linguísticos que originaram o termo (para + ballo) significam colocar junto; colocar lado a lado; colocar uma coisa ao lado de outra para fins de comparação.

A parábola é uma comparação extraída da natureza ou da vida diária destinada a esclarecer verdades da esfera espiritual. Ela por uma lado oculta o ensino, e por outro revela-o, dependendo isso do tipo de ouvinte (Mc 4.11, 12; Lc 8.10). Para os indiferentes a Deus e as suas coisas, a parábola é apenas uma história, um relato de fatos reais ou possíveis. Para os espirituais e sedentos da verdade, ele revela os mistérios do reino dos céus no seu aspecto atual (Mc 13.3-53).

Distribuição das parábolas nos Evangelhos:

Das trinta e sete parábolas apresentadas nos Evangelhos, elas encontram-se distribuídas da seguintes forma:
Mateus nos dá onze das parábolas de Jesus, não encontradas nos outros Evangelhos:

1.O joio, Mt 13.24-30, 36-43.
2.O tesouro escondido, Mt 13.44.
3.A pérola de grande valor, Mt 13.45,46.
4.A rede varredoura, Mt 13.47-50.
5.O credor incompassivo, Mt 18.23-35.
6.Os trabalhadores na vinha, Mt 20.1-16.
7.Os dois filhos, Mt 21.28-32.
8.As bodas do filho do rei, Mt 22.1-14.
9.As dez virgens, Mt 25.1-13.
10.Os talentos, Mt 25.14-30.
11.Os cabritos e as ovelhas, Mt 25.31-46.

Marcos registra apenas duas parábolas, não mencionadas por Mateus e nem por Lucas:

12.A semente que cresce secretamente, Mc 4.26-29.
13.Os servos vigilantes, Mc 13.34,35.

Em Lucas há dezessete parábolas não citadas nos outros Evangelhos:

14.Os dois devedores, Lc 7.41-43.
15.O bom samaritano, Lc 10.25-37.
16.O amigo importuno, Lc 11.5-8.
17.O rico insensato, Lc 12.16-21.
18.Os servos vigilantes, Lc 12.35-40.
19.O mordomo, Lc 12.42-48.
20.A figueira estéril, Lc 13.6-9.
21.A grande ceia, Lc 14.16-24.
22.A construção de uma torres, Lc 14.28-33.
23.A moeda perdida, Lc 15.8-10.
24.O filho perdido, Lc 15.11-32.
25.O administrador fiel, Lc 16.1-13.
26.O rico e Lázaro, Lc 16.19-31.
27.O senhor e seu servo, Lc 17.7-10.
28.A viúva importuna, Lc 18.1-8.
29.O fariseu e o publicano, Lc 18.10-14.
30.As dez minas, Lc 19.12-27.

Em João não há parábola, nem nas epístolas. Embora a inteira omissão de todas as parábolas sinóticas em João seja evidente, ainda assim o quarto evangelho não é de modo algum desprovido de um rico simbolismo. "Todo o evangelho de ponta a ponta é tomado pela representação simbólica".

Em Mateus, Marcos e Lucas, encontram-se sete parábolas comuns a todos os três Evangelhos:

31.A candeia debaixo do alqueire, Mt 5.15, Mc 4.21, Lc 8.16.
32.Pano novo em vestido velho, Mt 9.16, Mc 2.21, Lc 5.36.
33.Vinho novo em odres velhos, Mt 9.17, Mc 2.22, Lc 5.37, 38.
34.O semeador, Mt 13.1-23, Mc 4.1-9, Lc 8.4-15.
35.O grão mostarda, Mt 13.31, 32, Mc 4.30-34, Lc 13.18-20.
36.A vinha, Mt 21.33-46, Mc 12.1-12, Lc 20.9-19.
37.A figueira, Mt 23.32-35, Mc 13.28-31, Lc 21.29-33.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O COLAPSO DO MOVIMENTO EVANGÉLICO

Dois pastores paulistas se fantasiam de Fred e Barney. Isso mesmo, fantasiados de Flintstone, entre gracejos ridículos, acreditam que estão sendo “usados por Deus para salvar almas”. Na rádio, um apóstolo ordena que tragam todos os defuntos daquele dia, pois ele sente que Deus o “ungiu para ressuscitar mortos”.
Os jornais denunciam dois políticos de Minas Gerais, “eleitos por suas denominações para representar os interesses dos crentes”, como suspeitos de assassinato. O rosário se alonga: oração para abençoar dinheiro de corrupção; prisão nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, flagrante de missionários por tráfico de armas; conivência de pastores cariocas com chefões da cocaína .
Fica claro para qualquer leigo: O movimento Evangélico brasileiro se esboroa. O processo de falência, agudo, causa vexame. Alguns já nem identificam os evangélicos como protestantes. As pilastras que alicerçaram o protestantismo vêm sendo sistematicamente abaladas pelo segmento conhecido como neopentecostal. Como um trator de esteiras, o neopentecostalismo cresce passa por cima da história, descarta tradições e liturgias e se reinventa dentro das lógicas do mercado. É um novo fenômeno religioso.
É possível, sim, separá-lo como uma nova tendência. Sobram razões para afirmar-se que o neopentecostalismo deixou de ser protestante ou até mesmo evangélico. É uma nova religião. Uma religião simplória na resposta aos problemas nacionais, supersticiosa na prática espiritual, obscurantista na concepção de mundo, imediatista nas promessas irreais e guetoizada em seu diálogo cultural.
Mas a influência do neopentecostalismo já transbordou para o “mainstream” prostestante. O neopentecostalismo fermentou as igrejas consideradas históricas. Elas também se vêem obrigadas a explicar quase dominicalmente se aderiram ou não aos conceito mágicos das preces. Recentemente, uma igreja batista tradicional promoveu uma “Maratona de Oração pela Salvação de Filhos Desviados”.
Pentecostais clássicos, como a Assembléia de Deus, estão tão saturados pela teologia neopentecostal que pastores, inadvertidamente, repetem jargões e prometem que a vida de um verdadeiro crente fica protegida dentro de engrenagens de causa-e-efeito. Os “ungidos” afirmam que sabem fazer ”fluir as bênçãos de Deus”. É comum ouvir de pregadores pentecostais que vão ensinar a ”oração que move o braço de Deus”.
O Movimento Evangélico implode. Sua implosão é visceral. Distanciou-se de dois alicerces cristãos básicos, graça e fé. Ao afastar-se destes dois alicerces fundamentais do cristianismo, permitiu que se abrisse essa fenda histórica com a tradição apostólica.
1. A teologia da Graça
Desde a Reforma, protestantes e católicos passaram a trabalhar a Graça como pedra de arranque de um novo cristianismo. O texto bíblico, “o justo viverá da fé”, acendeu o rastilho de pólvora que alterou a cosmovisão herdada da Idade Média. A Graça impulsionou o cristianismo para tempos mais leves. Foi a Graça que acabou com a lógica retributiva que mostrava Deus como um bedel a exigir penitência. Devido a Graça entendeu-se que a sua ira não precisa ser contida. O cristianismo medieval fora infectado por um paganismo pessimista e, por isso, sobravam espertalhões vendendo relíquias e objetos milagrosos que, segundo a pregação, “garantiam salvação e abriam as janelas da bênção celestial”.
Lutero, um monge agostiniano, portanto católico, percebeu que o amor de Deus não podia ser provocado por rito, prece, pagamento ou penitência. Graça, para Lutero, significava a iniciativa de Deus, constante, unilateral e gratuita, de permanecer simpático com a humanidade. Lutero intuiu que Deus não permanecia de braços cruzados, cenho franzido, à espera de que homens e mulheres o motivassem a amar. O monge escancarou: as indulgências eram um embuste. Assim, Lutero solapava o poder da igreja que se autoproclamava gerente dos favores divinos.
Passados tantos séculos, o movimento neopentecostal, responsável pelas maiores fatias de crescimento entre evangélicos, abandonou a pregação da Graça. (É preciso ressaltar, de passagem, que o conceito da Graça pode até constar em compêndios teológicos, mas não significa quase nada no dia-a-dia dos sujeitos religiosos).
Os neopentecostais retrocederam ao catolicismo medieval. É pre-moderna a religiosidade que estimula valer-se de amuletos “como ponto de contato para a fé”; fazerem-se votos financeiros para “abrir as portas do céu”; “pagar o preço” para alcançar as promessas de Deus. Desse modo, a magia espiritual da Idade Média se disfarçou de piedade. A prática da maioria dos crentes hoje se concentra em aprender a controlar o mundo sobrenatural. Qual o objetivo? Alcançar prosperidade ou resolver problemas existenciais.
2. A compreensão da Fé “A Piedade Pervertida” (Grapho Editores) de Ricardo Quadros Gouvêa é um trabalho primoroso que explica a influência do fundamentalismo entre evangélicos.
“O louvorzão, assim como as vigílias e as reuniões de oração, e até mesmo o mais simples culto de domingo, muitas vezes não passam de um tipo de superstição que beira a feitiçaria, uma vez que ele é realizado com o intuito de ‘forçar’ uma ação benévola da parte de Deus, como se o culto e o louvor fossem um ‘sacrifício’, como os antigos sacrifícios pagãos. Neste caso, não temos mais liturgias, mas sim teurgias, nas quais procura-se manipular o poder de Deus” (p.28).
Ora, enquanto fé permanecer como uma “alavanca que move os céus”, as liturgias continuarão centradas na capacidade de tornar a oração mais eficaz. Antes dos neopentecostais, o Movimento Evangélico já se distanciara dos Místicos históricos que praticavam a oração com um exercício de contemplação e não como ferramenta de como tornar Deus mais útil.
Fé não é uma força que se projeta na direção do Eterno. Fé não desata os nós que impedem bênçãos. Fé é coragem de enfrentar a vida sem qualquer favor especial. Fé é confiança de que os valores de Cristo são suficientes no enfrentamento das contingências existenciais. Fé aposta no seguimento de Cristo; seguir a Cristo é um projeto de vida fascinante.O neopentecostalismo ganhou visibilidade midiática, alastrou-se nas camadas populares e se tornou um movimento de massa. Por mais que os evangélicos conservadores não admitam, o neopentecostalismo passou a ser matriz de uma nova maneira de conceber as relações com o Divino.
A alternativa para o rolo compressor do neopentecostalismo só acontecerá quando houver coragem de romper com dogmatismos e com os anseios de resolver os problemas da vida pela magia.
O caminho parece longo, mas uma tênue luz já desponta no horizonte, e isso é animador.
Soli Deo Gloria
Ricardo Gondim