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O CORPUS PAULINUS E SUAS FONTES VETEROTESTAMENTÁRIAS


por Neemias de Oliveira1
RESUMO: Neste artigo procurou-se verificar quais foram as fontes disponíveis para a formação do Novo Testamento, mais especificamente o corpus Paulino. Observou-se que o apóstolo Paulo não foi apenas quem mais citou o Primeiro Testamento, tanto de forma direta ou implícita, mas também, quem dispôs das mais variadas formas do texto das Escrituras hebraicas. Destacou-se como e quais as formas que as cartas paulinas dependem de uma ou mais passagens das Escrituras.
PALAVRAS-CHAVE: Escrituras hebraicas, septuaginta, corpus Paulino, citações.
Introdução
A Bíblia dos autores do Novo Testamento eram as Escrituras judaicas, que posteriormente passaram a ser denominadas Antigo Testamento, e mais recentemente Primeiro Testamento.2 A Bíblia era central na vida deles, como também na dos rabinos, essênios, e demais grupos religiosos de sua época.
Uma importante questão é qual versão das Escrituras os autores neotestamentários usaram em seus escritos, uma vez que em seus dias, o texto do Primeiro Testamento existia em três formas lingüísticas: a Bíblia Hebraica, a Septuaginta e os targuns.
3 Ao que parece, predominam as citações da Bíblia Hebraica e da Septuaginta, e nessa ordem. Devido à limitação de se ter em mãos todas estas obras, os autores do Novo Testamento, em alguns dos casos teriam citado as Escrituras de memória. Daí, surge outra questão não menos importante: qual versão eles teriam memorizado? Tomando Paulo como exemplo, pode-se distinguir quando ele cita a Bíblia Hebraica ou a Septuaginta porque nem sempre esta seguiu o texto hebraico de forma consistente, o mesmo ocorre com os demais autores do Novo Testamento.
Outra questão a considerar é quais as formas de citação que Paulo faz das Escrituras em seus escritos, ou seja, como eram essas citações, se diretas, formais ou indiretas, ou apenas alusões. Também se poderiam ser paráfrases, traduções livres, dos próprios autores em alguns casos.
O CORPUS PAULINO
O nome de Paulo aparece em treze das vinte e uma cartas do Novo Testamento endereçadas a comunidades distintas, ou a indivíduos. No entanto a autoria paulina é questionada, por vários estúdios, em quase metade delas. Assim sendo, designa-se aqui como o corpus paulino as sete cartas tidas como autênticas ou cuja autoria paulina é incontestável. São elas: 1 Tessalonicenses, Gálatas, Filipenses, Filemom, 1 e 2 Coríntios e Romanos.4
1 FONTES VETEROTESTAMENTÁRIAS
AS ESCRITURAS HEBRAICAS
Todo o AT foi escrito em hebraico, o idioma oficial da nação israelita, exceto algumas passagens de Esdras, Jeremias e Daniel, que foram escritas em aramaico.
O hebraico faz parte das línguas semíticas, que eram faladas na Ásia (mediterrânea), exceto em bem poucas regiões. As línguas semíticas formavam um ramo dividido em grupos, sendo o hebraico integrante do grupo cananeu. Este compreendia o litoral oriental do Mediterrâneo, incluindo a Síria, a Palestina e o território que constitui hoje a Jordânia.
A SEPTUAGINTA
A Septuaginta é uma tradução do Primeiro Testamento hebraico para o grego. O seu nome “septuaginta” vem diretamente do latim, com o sentido de setenta, o que explica sua familiar representação em números romanos, “LXX”. Esse nome deriva-se da tradição que diz que essa versão foi feita por setenta (ou setenta e dois) anciões judeus, durante o reinado de Ptolomeu II Filadelfo, tendo, sido feito na cidade de Alexandria, no Egito (284-247 a.C.). A razão dessa tradução do hebraico para o grego foi que os judeus que tinham voltado do exílio babilônico, após três gerações, haviam-se esquecido do hebraico. Muitos deles falavam o aramaico, mas, desde que a região da Palestina passara a fazer parte do império dividido de Alexandre, o Grande, os judeus também aprenderam a falar o grego, que se tornara a língua franca de toda aquela circunvizinhança.5
OS TARGUNS
A segunda mais importante versão antiga, é na realidade uma coleção de diferentes escritos conhecidos como targuns aramaicos, de uma palavra aramaica antiga que significa ‘traduzir’, ou ‘interpretar’. Como no caso da LXX, os Targuns eram resposta a uma necessidade prática. Depois do cativeiro, o aramaico gradualmente tomou o lugar o hebraico como linguagem popular.6 Os Targuns foram primeiro paráfrases orais das Escrituras hebraicas, ensinadas nas sinagogas, que finalmente vieram a ser escritas. Nesse tempo, a leitura em público, das Escrituras, era seguida de explicação pelo leitor, para que o povo pudesse entender, Ne 8.8.
Contém muitas adições, interpretações e paráfrases livres. Mesmo assim esclarecem pontos difíceis do texto original usado pelos escribas, entre os quais se originaram os Targuns. Revelam também os métodos de interpretações usados pelos judeus daquele período.
7
O MIDRASH
O Midrash (pl. midrashim) ou midraxe era constituído de uma exposição exegética feita pelos rabinos e eruditos acerca das Escrituras hebraicas. O termo hebraico, proveniente do verbo darash, procurar, investigar, indica tanto o método de exegese quanto a produção literária dele resultante.8 O midraxe nascido na escola como pesquisa normativa, é chamado midrash haláquico. O midrash nascido na sinagoga como comentário edificante de leituras bíblicas litúrgicas é denominado midrash hagádico.
FONTES VETEROTESTAMENTÁRIAS NO CORPUS PAULINOS
Paulo, então, tinha diante de si várias opções: a versão grega (septuaginta), a Bíblia hebraica e versões em aramaico. Um estudo cuidadoso demonstra que ele usou a Septuaginta, como Filo e, possivelmente, Josefo, que também utilizou-se do texto hebraico, como os rabinos e Qumran, e que ainda usou targuns9. Predominam se as citações da Bíblia hebraica e da Septuaginta, nessa ordem.10 Pode-se distinguir quando Paulo cita uma ou outra porque nem sempre a Septuaginta seguiu o texto hebraico de forma consistente.
Além do uso das Escrituras hebraicas e da LXX, Paulo também combina tradições exegéticas rabínicas e heleno-judaicas.
Embora não se atenha a nenhum esquema, encontram-se nos escritos Paulinos citações literais, variações livres, alusões, associações de conteúdos: mandamentos, fatos, pessoas.
11
2 CITAÇÕES FORMAIS OU DIRETAS
As citações formais ou diretas são aquelas transcrições de passagens cujo emprego de frases ou sentenças se deu na íntegra ou em partes, mas com sentido completo. Uma boa parte dessas citações geralmente têm uma fórmula introdutória12, como “está escrito” (Rm 1.17; 2.24; 3.4,10; 4.17; 8.36 etc, ao todo 29 vezes), “a Escritura diz” (Rm 4.3; 9.17; 10.11; 11.2, Gl 4.30), “Davi diz” (Rm 4.6; 11.9), “Isaías diz” (Rm 10.16,20; 15.12) “Moisés diz” (Rm 10.19), “diz a Lei” (Rm 3.19, 1 Co 14.34), “Deus diz” (2 Co 6.16, Rm 9.15) ou coisa semelhante, e são seguidas pela reprodução da passagem do Antigo Testamento à qual o autor se refere.13
Mais da metade das citações do AT presentes nas cartas de Paulo [...] encontram-se na carta aos Romanos. As demais concentram-se nas cartas aos Coríntios e aos Gálatas. Isto deve-se seguramente ao fato de que estas cartas eram dirigidas a comunidades de origem judaica, que estavam em condições de entende-las e que, ademais mantinham vivas polêmicas com seus antigos correligionários. Ao contrário, as cartas dirigidas a comunidades de origem pagã [...] como Filipenses, estão desprovidas de citações bíblicas.
14
Existem aproximadamente 99 citações formais nas cartas de Paulo. De acordo com o índice de citações da terceira edição do texto crítico do Novo Testamento grego15, Romanos tem 60 citações, 1 Coríntios 17, 2 Coríntios 11, Gálatas 11. Sendo que, apenas Filipenses e Filemon não têm nenhuma citação formal ao Antigo Testamento.
Quase um terço dessas citações, 28, são extraídas da Septuaginta, sendo que as restantes concordam com o texto hebraico.
Em Ef 4.8-12, um típico midrash, sobre o texto citado no v.8, onde as palavras mais importantes da citação são retomadas e comentadas.
16
Em 1 Co 10.1-4: Não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos sob a nuvem, todos atravessaram o mar e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual, que os acompanhava, e essa rocha era Cristo. (Bíblia de Jerusalém) em analogia com a Midrash palestineniense, Paulo, coloca no mesmo plano tradições bíblicas (a passagem do mar, a água brotada da rocha, o maná) e as tradições orais (a nuvem pairando sobre o povo, o rochedo que os acompanhavam).
17 Sem dúvida, percebe-se uma alusão a todas as amplificações da hagadá, no qualificativo espiritual dado ao alimento, à bebida e ao rochedo18. Ele diz que a rocha doadora de água acompanhava a Israel no deserto, e ao mesmo tempo, e a interpreta como sendo o Cristo preexistente, como judaísmo helenista a associava à Sofia ou ao Logos.19
CITAÇÕES INDIRETAS OU ALUSÕES
São aquelas ocasiões onde o autor não se refere explicitamente às Escrituras, mas onde claramente está dependente de uma ou mais passagens do Primeiro Testamento. Pode-se considerar como alusões as citações livres, reminiscências, referências a eventos, paralelos de linguagem, ecos, etc. A característica comum é que as alusões não são precedidas por uma fórmula introdutória.
O número de alusões é muito maior. Como é bem difícil distingui-las, a lista, se comparada vários autores é bastante variada.
20 Tomando por base o índice de citações da terceira edição do texto crítico do Novo Testamento grego, existem 271 alusões ao Primeiro Testamento.21
Por exemplo, Rm 5.12-14 faz uma alusão clara, mas não cita, a queda de Adão e Eva no pecado, registrada em Gn 2 e 3. Em 1 Co 101.-15, Paulo menciona fatos ocorridos durante a peregrinação do povo de Israel no deserto, numa clara alusão ao que está registrado em Ex 32 e Nm 11, 14, 21 e 25. A alegoria de Sara e Agar em Gl 4.21-31 pe baseada em Gn 16.1ss.
Conclusão
Paulo, em suas cartas, construiu seus escritos à partir de textos anteriores, o que reflete sua boa formação rabínica. O embasamento que os escritos paulinos têm no Primeiro Testamento denota a idéia de este foi a primeira Bíblia cristã, e que os eventos neles registrados serviram para avisar e instruir os cristãos, para quem os séculos precedentes existiram.
BIBLIOGRAFIA
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BARRERA, Júlio Trebolle. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: uma introdução à história da Bíblia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
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DODD, Charles Harold. Segundo as escrituras: estrutura fundamental do Novo Testamento. 2a ed. São Paulo: Paulinas, 1979.
GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3° ed. São Paulo: Editora Teológica, 2003.
GUNDRY, Robert. H. Panorama do Novo Testamento. 4ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1987.
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LADD, Georg Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2003.
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SCHREINER, J.; DAUTZENBERG, G. Forma e exigências do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1977.
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ZENGER, Erich (et al). Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2003.
ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994.
1 Neemias de Oliveira é bacharelando pela Faculdade Evangélica de Teologia de Belo Horizonte FATE BH, onde cursa o 7° período.
2 Primeiro Testamento. Vide discussão apresentada em ZENGER, 2003 p. 19-20.
3 GUNDRY, 1987, 49.
4 Quanto a classificação das cartas paulinas vide BROWN, 2004. p. 55-74.
5 BARRERA, 1995, 603.
6 DOCKERY, 2001, 799.
7 CROATTO, 1985, 41.
8 KETTERER, 1996, 10.
9 CHAMPLIN, 1991, 794.
10 SWETE, 1989, 405.
11 SCHREINER, 1977, 21.
12 DODD, 1979, p. 28.
13 GOPPELT, op. cit., p. 305.
14 BARRERA, 1995, 603.
15 ALAND, 1983, 897-900.
16 BERGER, 1998, 105.
17 HAYS, 1989, 145.
18 KETTERER, 1996, 115.
19 GOPPELT, 2003, 305.
20 BRATCHER, 1987; NICOLE, 1979 apud ZUCK, 1994, 291.
21 ALAND, 1983, 901-911.

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