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DEUS ESTAVA EM CRISTO: um ensaio sobre a encarnação e a expiação

BAILLIE, Donald Macperson. Deus estava em Cristo: ensaio sobre a encarnação e a expiação. 2ª ed. Rio de Janeiro: JUERP/ASTE, 1983. 263p. (RESENHA)


O autor foi professor de teologia sistemática na University of Saint Andrews na Escócia, seus país de origem. Viveu entre os anos de 1887 a 1954. Junto com seu irmão John Baillie, fez parte do movimento que se chamou "a teologia da reconstrução" na Escócia durante os anos 1920-1950, a qual foi uma resposta neo-ortodoxa ao que ele considerava ser o evangelho liberal da primeira metade do séc. XX na Europa.
Este livro é sua obra prima, apesar de que ele mesmo o denomine apenas como um ensaio sobre a encarnação e a expiação de Cristo, de que não se tenha notícia de que ele tenha escrito outros mais. Como professor de teologia dava muitas palestras, e algumas delas foram inseridas no livro.
Baillie propôs restabelecer o equilíbrio na cristologia, frente a eruditos como Karl Rudolf Bultmann, Karl Barth e Emil Brunner, que diziam que não era possível saber nada com segurança sobre o "Jesus histórico", mas que o "Cristo da fé" era o mais importante na teologia bíblica. Baillie argumentou dizendo que não pode existir um "Cristo da fé" sem que esse Cristo tenha se manifestado numa forma completamente humana na história.
O livro está dividido em nove capítulos e dois apêndices. O primeiro capítulo, a encruzilhada da cristologia, indica dois fatores, segundo Baillie, que produziram a situação peculiar em que se encontra atualmente a Cristologia: a opinião geral de que não deve haver mais Docetismo que anule a completa humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo e a controvérsia levantada pelo novo estudo da história do Evangelho, na escola da Critica da Forma. No capítulo dois, trata de como compreender o movimento "Jesus da historia", que tanta influência exerceu na Teologia do princípio do século passado, e a forte reação que produziu transformando-se numa das feições características da Teologia hodierna. Procura estabelecer a verdadeira questão em foco e onde se encontra a verdade.
No capítulo três, o autor defende a necessidade de se ter uma Cristologia que considere a interpretação cristã da Historia convencida de que Deus se fez homem, na pessoa histórica de Jesus. No quarto capítulo, o autor critica certas expressões do pensamento cristológico, na Teologia moderna. Segundo o autor, pode haver três tendências que exijam exame e critica. Em primeiro lugar estão as tentativas de elaborar o significado da Encarnação na base da An-hipostasia, em que em Cristo não havia uma personalidade humana distinta, mas apenas uma personalidade divina, que assumiu a natureza humana. Em segundo lugar, trata da construção de uma Cristologia sobre a idéia da Kenosis divina, ou das teorias kenóticas; e em terceiro lugar a Cristologia bastante característica de Karl Heim, que emprega as idéias de Liderança e Senhorio.
No quinto capítulo, Baillie partiu diretamente para o problema central da sua Cristologia, o paradoxo da encarnação. Em sua compreensão é preciso ressaltar a união do divino e do humano em Jesus nos dias de sua humanidade. Daí, parte para o sexto capítulo onde trata da encarnação e a trindade. Ao analisar o que chama de antecedentes e conseqüentes da Encarnação, trata do que a Igreja sempre acreditou a respeito da pré-existência de Cristo, como o Filho eterno de Deus, e sobre o seu contínuo ministério e presença com o seu povo em todas as épocas, através do Espírito Santo. Apresenta então, todo o problema do que pretende entender com as distinções entre Pai e i Filho, e ainda, entre o Espírito Santo e o Pai e o Filho.
No capitulo sete, o autor demonstra, primeiro, como o esforço de se alcançar a vida boa e virtuosa fracassa sem a mensagem do perdão dos pecados. Enfatiza o fato de que há uma disposição de Deus para perdoar gratuita e abundantemente ao pecador penitente. E que Deus não apenas perdoa gratuitamente que pecador que se arrepende, mas vai até mesmo em busca do pecador que não se arrependeu, como um pastor que sai em busca da ovelha perdida. Segundo, é enfático sobre como este perdão deve estar baseado na doutrina da expiação divina. A reconciliação do homem com Deus se dá em ultima análise, por iniciativa única de Deus, que é quem carrega a ofensa e paga o preço.
No capítulo oito, o autor chega a pergunta inevitável, que relação tem tudo isto com a Cruz de Cristo? O autor entende que a expiação é uma conseqüência imediata da encarnação. Para ele, a religião da Encarnação é também a religião da Expiação. É porque "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões". Quando se recebe esta mensagem e se aceita o perdão dos pecados, começa-se então a ser livre de si mesmo. Porque Deus não imputa aos homens as suas transgressões, esses não devem considerar como suas essas virtudes. Sua confissão será: não eu, mas a graça de Deus.
O capitulo nove, já é um epílogo atribuindo a Igreja como o instrumento divino da reconciliação através dos tempos, sendo que para este fim a função perpétua da Igreja é proclamar, por meio da Palavra e Sacramento e pela sua vida total, a mensagem do que Deus fez em Jesus Cristo. A Igreja, e somente a Igreja, assevera, pode contar a "história sacra", porque é uma confissão e um testemunho entre os homens: a saber, que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra de reconciliação.
Baillie aborda a matéria de seu estudo com competência e revela familiaridade com o pensamento teológico contemporâneo. Seu método não e especulativo ou metafísico: o mistério da Pessoa de Cristo é tratado de perspectiva estritamente religiosa. Seu escopo não e formular uma teoria ou dar uma explicação cabal; visa ajudar os que se defrontam com a questão. Como trabalho judicioso, sem sentimentalismos ou retórica apenas, este livro destina-se tanto ao teólogo como ao homem típico de nossos dias.

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