terça-feira, 14 de abril de 2009

TEOLOGIA DA IGREJA: uma igreja segundo os propósitos de Deus

MULLOLLAND, Dewey M. Teologia da Igreja: uma igreja segundo os propósitos de Deus. São Paulo: Shedd Publicações, 2004. 252 p.(RESENHA)


O autor propõe em seu livro não uma discussão ou debate, mas uma pesquisa à respeito de sua compreensão da igreja segundo os propósitos de Deus, tomando por base as Escrituras. O texto na verdade, não nasceu como livro, mas é fruto de seus apontamentos individuais para suas aulas de Eclesiologia na Faculdade de Brasília, onde lecionava. Por ter esse caráter mais didático, é fácil perceber que o autor dividiu catorze capítulos de seu livro em quatro partes principais: natureza, ministério, missão e forma da igreja.
O autor introduz o livro levantando questionamentos sobre como vão as igrejas. Observa que a igreja foi criada e arquitetada por Deus, Cristo deu a sua vida por ela e o Espírito Santo foi enviado para lhe dar poder para cumprir sua missão terrena, chamando os pecadores para a comunhão, na esperança da eternidade. Assevera que a igreja do ponto de vista humano está passando por crise e que esta crise é de identidade, e daí conclui que a identidade da igreja deve ser determinada segundo a Bíblia, pois a eclesiologia constitui-se como doutrina central das Escrituras.
Após essa breve introdução, segue-se o capítulo1 onde apresenta alguns termos e metáforas que definem a natureza da igreja. Destaca os termos tais como ekklesia, igreja – o povo de Deus, koinonia por serem os termos principais para se captar os ensinamentos bíblicos centrais juntamente com as implicações práticas para a vida do dia-a-dia das igrejas. No capítulo 2, apresenta algumas metáforas tais como: corpo de Cristo, família de Deus, noiva de Cristo, templo, santuário ou edifício de Deus, cujo teor expressa algumas características da natureza intrínseca da igreja, bem como dos propósitos de Deus para ela.
Após enumerar termos e metáforas que designam a natureza da igreja, o autor dedica ao capítulo seguinte, um breve resgate do percurso da igreja ao longo de sua história, porque entende que assim é possível encontrar uma melhor maneira de agir para estabelecer igrejas como Deus quer, através do aprendizado das lições que a história fornece. Assim, afirma o autor, evita-se repetir erros e perder bênçãos.
Na segunda parte do livro, Mulholland, dedica o capítulo 4 para tratar dos ministros da igreja. À partir do modelo trinitário, analisa o ministro do ponto de vista divino como fator fundamental para manter a unidade da igreja. Defende a idéia de que todos os membros do corpo de Cristo são ministros de Deus, e entende que Deus designou apóstolos, profetas, evangelistas, pastores, mestres e outros ministros como ‘obreiros de apoio’ buscando o aperfeiçoamento da igreja. Avalia também o ministro em seu aspecto humano, enumerando algumas qualidades que, segundo ele, são essenciais para a saúde da igreja e primordiais que todos como ministros que são, tenham: humildade, mansidão, longanimidade e tolerância.
No capítulo 5, trata do ministério pastoral. Após inferir que as pessoas de um modo geral têm uma concepção errada de um pastor ideal, passa a apresentar a metáfora ou figura do pastor de ovelhas apresentada na Bíblia. Daí, pretende fundamentar sua concepção de ministério universal da igreja apresentada no capítulo anterior, ou seja, todos membros são ministros da igreja, e o pastor o auxiliar desses ministros.
No capitulo 6, apresenta os processos de relacionamentos chamados discipular e mentorear, bem como examina seu papel na vida de pastores que procuram equipar os santos para seus ministérios. Inclui também uma introdução ao relacionamento entre pastores que procuram ajudar uns aos outros. O autor encerra a segunda parte, com o capítulo 7, apresentando o aspecto do servir daquele que se diz seguidor de Cristo. À partir do exemplo e ensino de Cristo, traça um perfil dos líderes como servos, dos liderados como servos e da igreja como uma comunidade serva. Mostra como ao longo da história da igreja houve alguns desvios por parte de alguns líderes que se afastaram do modelo apresentado por Cristo, o clericalismo. Entende que a distinção entre clero e laicato contribui para o desaparecimento da preciosa doutrina neotestamentária do sacerdócio de todos os crentes.
Na terceira parte do livro, capítulos 8, 9 e 10, Mulholland, trata da missão global da igreja que é a de servir a Deus diretamente em adoração, servir aos santos em nutrição e servir ao mundo em testemunho. A missão global da igreja expressa-se no fato de que a igreja fundada sobre Jesus Cristo, o Supremo pastor, existe para a glória de Deus. O ministério de Jesus continua através da liderança colegiada, exemplos para o rebanho que estabelece as estruturas para o desempenho dos diversos ministérios dos servos de Deus. A missão interna se constitui em ministérios de adoração, interdependência e edificação, enquanto que a missão externa à evangelização e compaixão tendo em vista glorificar a Deus.
Por fim, na quarta parte do livro, o autor faz algumas considerações sobre a igreja como organização. Elabora um pequeno roteiro do desenvolvimento da igreja como organização desde o seu surgimento, bem como de suas formas históricas de governo: a episcopal, presbiteriana e congregacional. Apresenta então alguns critérios para a avaliação das estruturas eclesiásticas, e os aspectos da igreja como instituição e o perigo do institucionalismo eclesiástico. Para encerrar faz algumas considerações sobre os grupos paraeclesiásticos, desde uma conceituação até a avaliação destes.

terça-feira, 7 de abril de 2009

DEUS ESTAVA EM CRISTO: um ensaio sobre a encarnação e a expiação

BAILLIE, Donald Macperson. Deus estava em Cristo: ensaio sobre a encarnação e a expiação. 2ª ed. Rio de Janeiro: JUERP/ASTE, 1983. 263p. (RESENHA)


O autor foi professor de teologia sistemática na University of Saint Andrews na Escócia, seus país de origem. Viveu entre os anos de 1887 a 1954. Junto com seu irmão John Baillie, fez parte do movimento que se chamou "a teologia da reconstrução" na Escócia durante os anos 1920-1950, a qual foi uma resposta neo-ortodoxa ao que ele considerava ser o evangelho liberal da primeira metade do séc. XX na Europa.
Este livro é sua obra prima, apesar de que ele mesmo o denomine apenas como um ensaio sobre a encarnação e a expiação de Cristo, de que não se tenha notícia de que ele tenha escrito outros mais. Como professor de teologia dava muitas palestras, e algumas delas foram inseridas no livro.
Baillie propôs restabelecer o equilíbrio na cristologia, frente a eruditos como Karl Rudolf Bultmann, Karl Barth e Emil Brunner, que diziam que não era possível saber nada com segurança sobre o "Jesus histórico", mas que o "Cristo da fé" era o mais importante na teologia bíblica. Baillie argumentou dizendo que não pode existir um "Cristo da fé" sem que esse Cristo tenha se manifestado numa forma completamente humana na história.
O livro está dividido em nove capítulos e dois apêndices. O primeiro capítulo, a encruzilhada da cristologia, indica dois fatores, segundo Baillie, que produziram a situação peculiar em que se encontra atualmente a Cristologia: a opinião geral de que não deve haver mais Docetismo que anule a completa humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo e a controvérsia levantada pelo novo estudo da história do Evangelho, na escola da Critica da Forma. No capítulo dois, trata de como compreender o movimento "Jesus da historia", que tanta influência exerceu na Teologia do princípio do século passado, e a forte reação que produziu transformando-se numa das feições características da Teologia hodierna. Procura estabelecer a verdadeira questão em foco e onde se encontra a verdade.
No capítulo três, o autor defende a necessidade de se ter uma Cristologia que considere a interpretação cristã da Historia convencida de que Deus se fez homem, na pessoa histórica de Jesus. No quarto capítulo, o autor critica certas expressões do pensamento cristológico, na Teologia moderna. Segundo o autor, pode haver três tendências que exijam exame e critica. Em primeiro lugar estão as tentativas de elaborar o significado da Encarnação na base da An-hipostasia, em que em Cristo não havia uma personalidade humana distinta, mas apenas uma personalidade divina, que assumiu a natureza humana. Em segundo lugar, trata da construção de uma Cristologia sobre a idéia da Kenosis divina, ou das teorias kenóticas; e em terceiro lugar a Cristologia bastante característica de Karl Heim, que emprega as idéias de Liderança e Senhorio.
No quinto capítulo, Baillie partiu diretamente para o problema central da sua Cristologia, o paradoxo da encarnação. Em sua compreensão é preciso ressaltar a união do divino e do humano em Jesus nos dias de sua humanidade. Daí, parte para o sexto capítulo onde trata da encarnação e a trindade. Ao analisar o que chama de antecedentes e conseqüentes da Encarnação, trata do que a Igreja sempre acreditou a respeito da pré-existência de Cristo, como o Filho eterno de Deus, e sobre o seu contínuo ministério e presença com o seu povo em todas as épocas, através do Espírito Santo. Apresenta então, todo o problema do que pretende entender com as distinções entre Pai e i Filho, e ainda, entre o Espírito Santo e o Pai e o Filho.
No capitulo sete, o autor demonstra, primeiro, como o esforço de se alcançar a vida boa e virtuosa fracassa sem a mensagem do perdão dos pecados. Enfatiza o fato de que há uma disposição de Deus para perdoar gratuita e abundantemente ao pecador penitente. E que Deus não apenas perdoa gratuitamente que pecador que se arrepende, mas vai até mesmo em busca do pecador que não se arrependeu, como um pastor que sai em busca da ovelha perdida. Segundo, é enfático sobre como este perdão deve estar baseado na doutrina da expiação divina. A reconciliação do homem com Deus se dá em ultima análise, por iniciativa única de Deus, que é quem carrega a ofensa e paga o preço.
No capítulo oito, o autor chega a pergunta inevitável, que relação tem tudo isto com a Cruz de Cristo? O autor entende que a expiação é uma conseqüência imediata da encarnação. Para ele, a religião da Encarnação é também a religião da Expiação. É porque "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões". Quando se recebe esta mensagem e se aceita o perdão dos pecados, começa-se então a ser livre de si mesmo. Porque Deus não imputa aos homens as suas transgressões, esses não devem considerar como suas essas virtudes. Sua confissão será: não eu, mas a graça de Deus.
O capitulo nove, já é um epílogo atribuindo a Igreja como o instrumento divino da reconciliação através dos tempos, sendo que para este fim a função perpétua da Igreja é proclamar, por meio da Palavra e Sacramento e pela sua vida total, a mensagem do que Deus fez em Jesus Cristo. A Igreja, e somente a Igreja, assevera, pode contar a "história sacra", porque é uma confissão e um testemunho entre os homens: a saber, que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra de reconciliação.
Baillie aborda a matéria de seu estudo com competência e revela familiaridade com o pensamento teológico contemporâneo. Seu método não e especulativo ou metafísico: o mistério da Pessoa de Cristo é tratado de perspectiva estritamente religiosa. Seu escopo não e formular uma teoria ou dar uma explicação cabal; visa ajudar os que se defrontam com a questão. Como trabalho judicioso, sem sentimentalismos ou retórica apenas, este livro destina-se tanto ao teólogo como ao homem típico de nossos dias.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

HOJE FUI AO SHOPPING DA FÉ



Como documentalista nas horas (vagas?) trabalho em vários lugares diferentes. Hoje estive em Esmeraldas. Uma das cidadezinhas da grande BH. Com mais ou menos uns 60.000 habitantes, à distância de pouco mais de 50km da Praça Sete. Na minha visita a esta cidadezinha, me sentí em Atenas (guardadas as devidas proporções) dos dias de Paulo. Quando cheguei na praça da matriz, me deparei com algo no mínimo inusitado. Na principal das esquinas o quadro que ví foi o seguinte: de um lado a Matriz da Paróquia de Santa Maria Gertrudes, do outro lado o Fórum, na outra esquina a Prefeitura, em frente uma enorme loja (para o tamanho da cidade) chamada o SHOPPING DA FÉ, que me chamou bastante atenção. Eu achava que já tinha visto de tudo, corrente poderosa de fé, show da fé, espetáculo de Deus, o encontro, shopping evangélico etc. Agora pude entrar Shopping da fé.
Coincidência ou não, pra dizer verdade, no trajeto até aquela cidade, estive pensando no apelo mercadológico a que a fé está submetida. Ouví a semana passada de um destes pastores televisos o que parecia ser um “mantra” evangélico para este momento de crise. Ele colocou todo o seu auditório para repetir a seguinte máxima de fé: o mundo está em crise, mas eu não! Repita isto para você mesmo, disse ele. Diga ao seu irmão da esquerda, agora ao da direita, cutuque o que está à sua frente etc. Me preocupa o neo-medievalismo que estamos vivenciando. A teologia de muitos crentes (e não crentes) hoje está beseada no seguinte tripé: “Deus abençoa quem se sacrifica, honra quem persevera e abomina quem retrocede”. Nesta perspectiva “sacrifício” é entendido como oferta financeira na corrente de fé, que pode durar três, cinco, sete, doze, vinte ou quarenta dias. Se o indivíduo não alcançar a "graça ou a vitória" no período da campanha ou da corrente, não deve desanimar. Só não pode faltar nenhum dia, se não “quebra” a corrente e tem de começar tudo de novo, tem que perseverar. Ora, na idade média, se vendia lascas da cruz, ossos de João Batista, lágrimas de Cristo, etc. E hoje? Mudaram-se os tempos, mas os costumes não. Só passaram a ter outros nomes, mantenedor fiel, sócio evangelizador, investidor no reino dos céus. Enquanto Tetzel anunciava em alto tom que “o som da moeda que ressoa no fundo do baú liberta as almas do purgatório”, os Tetzels de hoje anunciam “quando você pagar o boleto bancário ou fizer o débito automático para ajudar meu ministério, liberará bênçãos sem medidas (dez por um, cem por dez, mil por cem) dos celeiros celestiais”. Cena esta que não deixaria Lutero menos aterrorizado do que quando de sua visita a Roma.
Agora lá estava eu no SHOPPING DA FÉ e diante de mim: velas, vasos para vaporizões de raízes, imagens de São Jorge empunhado de sua espada e montado em seu imponente cavalo, imagens dos mais diversos santos, Bíblias, rosários, crucifixos, livros de rezas, fitinhas do Senhor do Bonfim, e pasmem, livros evangélicos de auto-ajuda do tipo: 7 passos para o sucesso, 5 princípios para prosperidade e etc., envelopes para campanhas e dízimos, fitinhas de campanhas do tipo: “Deus não se esqueça de mim, porque sou dizimista!” e etc.
Fiquei estarrecido com o apelo mercadológico que fizeram da fé. E pensei comigo mesmo, nos dias Jesus ele perguntou: Quando, porém, vier o Filho do Homem, porventura, achará fé na terra?, Lc 18.8. E hoje? Qual seria a sua pergunta? Talvez, “haverá na terra tanto dinheiro para gastar com a fé?”

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O CORPUS PAULINUS E SUAS FONTES VETEROTESTAMENTÁRIAS


por Neemias de Oliveira1
RESUMO: Neste artigo procurou-se verificar quais foram as fontes disponíveis para a formação do Novo Testamento, mais especificamente o corpus Paulino. Observou-se que o apóstolo Paulo não foi apenas quem mais citou o Primeiro Testamento, tanto de forma direta ou implícita, mas também, quem dispôs das mais variadas formas do texto das Escrituras hebraicas. Destacou-se como e quais as formas que as cartas paulinas dependem de uma ou mais passagens das Escrituras.
PALAVRAS-CHAVE: Escrituras hebraicas, septuaginta, corpus Paulino, citações.
Introdução
A Bíblia dos autores do Novo Testamento eram as Escrituras judaicas, que posteriormente passaram a ser denominadas Antigo Testamento, e mais recentemente Primeiro Testamento.2 A Bíblia era central na vida deles, como também na dos rabinos, essênios, e demais grupos religiosos de sua época.
Uma importante questão é qual versão das Escrituras os autores neotestamentários usaram em seus escritos, uma vez que em seus dias, o texto do Primeiro Testamento existia em três formas lingüísticas: a Bíblia Hebraica, a Septuaginta e os targuns.
3 Ao que parece, predominam as citações da Bíblia Hebraica e da Septuaginta, e nessa ordem. Devido à limitação de se ter em mãos todas estas obras, os autores do Novo Testamento, em alguns dos casos teriam citado as Escrituras de memória. Daí, surge outra questão não menos importante: qual versão eles teriam memorizado? Tomando Paulo como exemplo, pode-se distinguir quando ele cita a Bíblia Hebraica ou a Septuaginta porque nem sempre esta seguiu o texto hebraico de forma consistente, o mesmo ocorre com os demais autores do Novo Testamento.
Outra questão a considerar é quais as formas de citação que Paulo faz das Escrituras em seus escritos, ou seja, como eram essas citações, se diretas, formais ou indiretas, ou apenas alusões. Também se poderiam ser paráfrases, traduções livres, dos próprios autores em alguns casos.
O CORPUS PAULINO
O nome de Paulo aparece em treze das vinte e uma cartas do Novo Testamento endereçadas a comunidades distintas, ou a indivíduos. No entanto a autoria paulina é questionada, por vários estúdios, em quase metade delas. Assim sendo, designa-se aqui como o corpus paulino as sete cartas tidas como autênticas ou cuja autoria paulina é incontestável. São elas: 1 Tessalonicenses, Gálatas, Filipenses, Filemom, 1 e 2 Coríntios e Romanos.4
1 FONTES VETEROTESTAMENTÁRIAS
AS ESCRITURAS HEBRAICAS
Todo o AT foi escrito em hebraico, o idioma oficial da nação israelita, exceto algumas passagens de Esdras, Jeremias e Daniel, que foram escritas em aramaico.
O hebraico faz parte das línguas semíticas, que eram faladas na Ásia (mediterrânea), exceto em bem poucas regiões. As línguas semíticas formavam um ramo dividido em grupos, sendo o hebraico integrante do grupo cananeu. Este compreendia o litoral oriental do Mediterrâneo, incluindo a Síria, a Palestina e o território que constitui hoje a Jordânia.
A SEPTUAGINTA
A Septuaginta é uma tradução do Primeiro Testamento hebraico para o grego. O seu nome “septuaginta” vem diretamente do latim, com o sentido de setenta, o que explica sua familiar representação em números romanos, “LXX”. Esse nome deriva-se da tradição que diz que essa versão foi feita por setenta (ou setenta e dois) anciões judeus, durante o reinado de Ptolomeu II Filadelfo, tendo, sido feito na cidade de Alexandria, no Egito (284-247 a.C.). A razão dessa tradução do hebraico para o grego foi que os judeus que tinham voltado do exílio babilônico, após três gerações, haviam-se esquecido do hebraico. Muitos deles falavam o aramaico, mas, desde que a região da Palestina passara a fazer parte do império dividido de Alexandre, o Grande, os judeus também aprenderam a falar o grego, que se tornara a língua franca de toda aquela circunvizinhança.5
OS TARGUNS
A segunda mais importante versão antiga, é na realidade uma coleção de diferentes escritos conhecidos como targuns aramaicos, de uma palavra aramaica antiga que significa ‘traduzir’, ou ‘interpretar’. Como no caso da LXX, os Targuns eram resposta a uma necessidade prática. Depois do cativeiro, o aramaico gradualmente tomou o lugar o hebraico como linguagem popular.6 Os Targuns foram primeiro paráfrases orais das Escrituras hebraicas, ensinadas nas sinagogas, que finalmente vieram a ser escritas. Nesse tempo, a leitura em público, das Escrituras, era seguida de explicação pelo leitor, para que o povo pudesse entender, Ne 8.8.
Contém muitas adições, interpretações e paráfrases livres. Mesmo assim esclarecem pontos difíceis do texto original usado pelos escribas, entre os quais se originaram os Targuns. Revelam também os métodos de interpretações usados pelos judeus daquele período.
7
O MIDRASH
O Midrash (pl. midrashim) ou midraxe era constituído de uma exposição exegética feita pelos rabinos e eruditos acerca das Escrituras hebraicas. O termo hebraico, proveniente do verbo darash, procurar, investigar, indica tanto o método de exegese quanto a produção literária dele resultante.8 O midraxe nascido na escola como pesquisa normativa, é chamado midrash haláquico. O midrash nascido na sinagoga como comentário edificante de leituras bíblicas litúrgicas é denominado midrash hagádico.
FONTES VETEROTESTAMENTÁRIAS NO CORPUS PAULINOS
Paulo, então, tinha diante de si várias opções: a versão grega (septuaginta), a Bíblia hebraica e versões em aramaico. Um estudo cuidadoso demonstra que ele usou a Septuaginta, como Filo e, possivelmente, Josefo, que também utilizou-se do texto hebraico, como os rabinos e Qumran, e que ainda usou targuns9. Predominam se as citações da Bíblia hebraica e da Septuaginta, nessa ordem.10 Pode-se distinguir quando Paulo cita uma ou outra porque nem sempre a Septuaginta seguiu o texto hebraico de forma consistente.
Além do uso das Escrituras hebraicas e da LXX, Paulo também combina tradições exegéticas rabínicas e heleno-judaicas.
Embora não se atenha a nenhum esquema, encontram-se nos escritos Paulinos citações literais, variações livres, alusões, associações de conteúdos: mandamentos, fatos, pessoas.
11
2 CITAÇÕES FORMAIS OU DIRETAS
As citações formais ou diretas são aquelas transcrições de passagens cujo emprego de frases ou sentenças se deu na íntegra ou em partes, mas com sentido completo. Uma boa parte dessas citações geralmente têm uma fórmula introdutória12, como “está escrito” (Rm 1.17; 2.24; 3.4,10; 4.17; 8.36 etc, ao todo 29 vezes), “a Escritura diz” (Rm 4.3; 9.17; 10.11; 11.2, Gl 4.30), “Davi diz” (Rm 4.6; 11.9), “Isaías diz” (Rm 10.16,20; 15.12) “Moisés diz” (Rm 10.19), “diz a Lei” (Rm 3.19, 1 Co 14.34), “Deus diz” (2 Co 6.16, Rm 9.15) ou coisa semelhante, e são seguidas pela reprodução da passagem do Antigo Testamento à qual o autor se refere.13
Mais da metade das citações do AT presentes nas cartas de Paulo [...] encontram-se na carta aos Romanos. As demais concentram-se nas cartas aos Coríntios e aos Gálatas. Isto deve-se seguramente ao fato de que estas cartas eram dirigidas a comunidades de origem judaica, que estavam em condições de entende-las e que, ademais mantinham vivas polêmicas com seus antigos correligionários. Ao contrário, as cartas dirigidas a comunidades de origem pagã [...] como Filipenses, estão desprovidas de citações bíblicas.
14
Existem aproximadamente 99 citações formais nas cartas de Paulo. De acordo com o índice de citações da terceira edição do texto crítico do Novo Testamento grego15, Romanos tem 60 citações, 1 Coríntios 17, 2 Coríntios 11, Gálatas 11. Sendo que, apenas Filipenses e Filemon não têm nenhuma citação formal ao Antigo Testamento.
Quase um terço dessas citações, 28, são extraídas da Septuaginta, sendo que as restantes concordam com o texto hebraico.
Em Ef 4.8-12, um típico midrash, sobre o texto citado no v.8, onde as palavras mais importantes da citação são retomadas e comentadas.
16
Em 1 Co 10.1-4: Não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos sob a nuvem, todos atravessaram o mar e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual, que os acompanhava, e essa rocha era Cristo. (Bíblia de Jerusalém) em analogia com a Midrash palestineniense, Paulo, coloca no mesmo plano tradições bíblicas (a passagem do mar, a água brotada da rocha, o maná) e as tradições orais (a nuvem pairando sobre o povo, o rochedo que os acompanhavam).
17 Sem dúvida, percebe-se uma alusão a todas as amplificações da hagadá, no qualificativo espiritual dado ao alimento, à bebida e ao rochedo18. Ele diz que a rocha doadora de água acompanhava a Israel no deserto, e ao mesmo tempo, e a interpreta como sendo o Cristo preexistente, como judaísmo helenista a associava à Sofia ou ao Logos.19
CITAÇÕES INDIRETAS OU ALUSÕES
São aquelas ocasiões onde o autor não se refere explicitamente às Escrituras, mas onde claramente está dependente de uma ou mais passagens do Primeiro Testamento. Pode-se considerar como alusões as citações livres, reminiscências, referências a eventos, paralelos de linguagem, ecos, etc. A característica comum é que as alusões não são precedidas por uma fórmula introdutória.
O número de alusões é muito maior. Como é bem difícil distingui-las, a lista, se comparada vários autores é bastante variada.
20 Tomando por base o índice de citações da terceira edição do texto crítico do Novo Testamento grego, existem 271 alusões ao Primeiro Testamento.21
Por exemplo, Rm 5.12-14 faz uma alusão clara, mas não cita, a queda de Adão e Eva no pecado, registrada em Gn 2 e 3. Em 1 Co 101.-15, Paulo menciona fatos ocorridos durante a peregrinação do povo de Israel no deserto, numa clara alusão ao que está registrado em Ex 32 e Nm 11, 14, 21 e 25. A alegoria de Sara e Agar em Gl 4.21-31 pe baseada em Gn 16.1ss.
Conclusão
Paulo, em suas cartas, construiu seus escritos à partir de textos anteriores, o que reflete sua boa formação rabínica. O embasamento que os escritos paulinos têm no Primeiro Testamento denota a idéia de este foi a primeira Bíblia cristã, e que os eventos neles registrados serviram para avisar e instruir os cristãos, para quem os séculos precedentes existiram.
BIBLIOGRAFIA
ALAND, Kurt et al. (Eds.) The greek New Testament. 3a ed. cor. Stuttgart, Alemain: UBS, 1983.
BARRERA, Júlio Trebolle. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: uma introdução à história da Bíblia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
BERGER, Klaus. As formas literárias do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1998.
BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004.
CROATTO. J. Severino. Hermenêutica Bíblica. São Leopoldo-RS: Sinodal, 1985.
DOCKERY, David S. (Ed.) Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001.
DODD, Charles Harold. Segundo as escrituras: estrutura fundamental do Novo Testamento. 2a ed. São Paulo: Paulinas, 1979.
GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3° ed. São Paulo: Editora Teológica, 2003.
GUNDRY, Robert. H. Panorama do Novo Testamento. 4ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1987.
HAYS, Richard B. Echoes of Scripture in the letters of Paul. London: Yale University Press, 1989.
KETTERER, Eliane; REMAUD, Michel. O midraxe. São Paulo: Paulus, 1996.
LADD, Georg Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2003.
LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpetes: uma breve história da interpretação. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
SCHREINER, J.; DAUTZENBERG, G. Forma e exigências do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1977.
SWETE, Henry Barclay. An introduction to the Old Testament in greek. Massachussetts: Hendrickson Publishers, 1989.
ZENGER, Erich (et al). Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2003.
ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994.
1 Neemias de Oliveira é bacharelando pela Faculdade Evangélica de Teologia de Belo Horizonte FATE BH, onde cursa o 7° período.
2 Primeiro Testamento. Vide discussão apresentada em ZENGER, 2003 p. 19-20.
3 GUNDRY, 1987, 49.
4 Quanto a classificação das cartas paulinas vide BROWN, 2004. p. 55-74.
5 BARRERA, 1995, 603.
6 DOCKERY, 2001, 799.
7 CROATTO, 1985, 41.
8 KETTERER, 1996, 10.
9 CHAMPLIN, 1991, 794.
10 SWETE, 1989, 405.
11 SCHREINER, 1977, 21.
12 DODD, 1979, p. 28.
13 GOPPELT, op. cit., p. 305.
14 BARRERA, 1995, 603.
15 ALAND, 1983, 897-900.
16 BERGER, 1998, 105.
17 HAYS, 1989, 145.
18 KETTERER, 1996, 115.
19 GOPPELT, 2003, 305.
20 BRATCHER, 1987; NICOLE, 1979 apud ZUCK, 1994, 291.
21 ALAND, 1983, 901-911.