quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A AGONIA DOS PROFETAS: DO BARROCO AO PROFETISMO ESQUECIDO (ou rejeitado?)

A AGONIA DOS PROFETAS” assim estampava em caixa alta, o editorial que foi capa do jornal ESTADO DE MINAS de 26/01/09. Esta manchete me fez pensar de imediato que os profetas (do Antigo Testamento) também ‘ainda’ agonizam ante ao desprezo com que suas palavras parecem estar relegadas nos dias atuais. Suas mensagens batiam de frente à corrupção de seus líderes (políticos e religiosos). Tinham uma visão bastante ampla dos problemas sociais, de sua época, enfrentados pelos menos favorecidos a despeito da ganância de grande parte dos ricos e poderosos, e não se calavam, antes, os denunciavam de modo austero e contundente.
Obviamente o referido editorial retratava o descaso ao patrimônio histórico da humanidade que são as esculturas de Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como ‘Aleijadinho’.
Quando visito Congonhas do Campo e demais cidades que guardam o que há de mais belo do barroco produzido no Brasil. Não posso me conter ante a beleza, e ao mesmo tempo o chamamento que aquelas obras de arte nos faz. Ali temos a Bíblia em pedra-sabão.
Aleijadinho produziu um total de 76 estátuas, talhadas em pedra-sabão e cedro. De 1796 a 1799, Aleijadinho trabalhou no conjunto dos Passos. São sete passos: a Ceia, a Agonia no Horto, a Prisão de Cristo, a Flagelação e Coroação de espinhos, a Subida ao Calvário, a Crucificação de Cristo. Encerra toda a história da Paixão. Quando esperamos ver a cruz erguida com o Cristo crucificado, na marcha ascendente, nossa esperança é interrompida pelo Adro dos Profetas. Doze profetas em pedra-sabão foram esculpidos no período de 1800 a 1805. Sem levar em conta a discussão quanto a qual escultura teria sido feita por Aleijadinho ou um dos seus auxiliares, temos aqui uma “Bíblia de pedra-sabão. Cada um dos profetas segura uma plaqueta, com uma frase latina. Vejamos as frases:
Isaías: “Depois que os serafins louvaram ao Senhor, um deles trouxe as meus lábios uma brasa com uma tenaz”.
Jeremias: “Eu choro o desastre da Judéia e a ruína de Jerusalém; e imploro que se voltem para o Senhor”.
Baruque: “Eu predigo a vinda do Messias na carne e os últimos tempos do mundo, e previno os piedosos.”
Ezequiel: “Descrevo os quatro animais no meio das chamas, e as rodas horríveis e o trono etéreo”
Daniel: “Encerrado na cova dos leões, sou libertado, incólume com o auxílio de Deus”.
Oséias: “Toma a adúltera, disse-me o Senhor; eu faço, ela, tornando-se minha esposas, concebe e dá à luz”.
Joel: Exponho à Judéia que mal hão de trazer à terra a lagarta, o gafanhoto o brugo e a ferragem”
Amós: “Feito primeiro pastor e, em seguida, profeta, dirijo-me contra as vacas gordas e os chefes de Israel”.
Obadias: “Eu vos arguo, idumeus e gentios. Anuncio-vos e vos prevejo pranto e destruição”.
Jonas: “Engolido por uma baleia, permaneço três dias e três noites no ventre do peixe; depois venho a Nínive”.
Naum: “Exponho que castigo espera Nínive pecadora. Declaro que a Assíria será completamente destruída.”
Habacuque: “ó Babilônia, Babilônia, eu te arguo, eu te arguo, ó tirano da Caldéia: mas a ti, ó Deus benigno, canto em salmos.”

Qual a razão de esses 12 profetas interromperem nossa meditação e nosso acompanhamento da paixão de Cristo? Por que eles caem sobre nós com suas palavras violentas, num crescendum? Não deveriam eles estar antes dos Passos, apontando para o que há de vir, como profetas que são? Por que, quando passamos por eles, temos que nos deparar, no portal da igreja, com a coroa de espinhos?
Se nos voltarmos e olharmos para os profetas, vamos ver Isaías, do qual a tradição diz que sofreu o martírio, depois de anunciar o “Servo Sofredor”, à sua frente está Jeremias, do qual se sabe que, muitas vezes foi aprisionado, ameaçado de morte, jogado no poço, por causa de sua coragem; depois Daniel, jogado aos leões por causa de sua fé; Jonas, fugindo e sendo entregue à goela do peixe. Não sofreram todos eles, ao menos uma vez, a sina de Amós, sendo acusados de sedição e expulsos do país?
O profeta consegue inimigos por causa das verdades que diz, não foge aos perigos e está pronto a oferecer a própria vida. E os inimigos são nomeados: Assíria, Babilônia, Caldéia e Edom, as potências que oprimem o povo de Deus e os parentes próximos que se bandeiam para o lado dos conquistadores. Ali estão os 12, unidos como uma comunidade, com um mesmo destino: atender os restos de uma comunidade, desterrada, formada de fugitivos e exilados, distantes do templo de Deus, longe da terra prometida e da cidade santa, mas devendo ser consolados e permanecer com esperança. Na falta de documentos escritos só podemos tentar responder à pergunta pela razão dessa interrupção e dessas palavras violentas com um exercício de interpretação.
Os profetas não se satisfizeram em falar apenas do relacionamento espiritual. Eles manifestaram também uma clara preocupação com a pessoa como um todo. Um texto que há muito simbolizava esta preocupação é Amós 5.24: “Antes, corra o juízo como as águas: e a justiça, como ribeiro perene”. É por isso que Amós reserva sua condenação mais severa para os israelitas do norte que “vendem o justo por dinheiro e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias. Suspiram pelo pó da terra sobre a cabeça dos pobres e pervertem o caminho dos mansos; um homem e seu pai coabitam com a mesma jovem e, assim, profanam o meu santo nome” (Am 2.6,7). Na verdade, as coisas tinham se tornado tão desprezíveis que pai e filho tinham relações sexuais com a mesma mulher (Am 2.7). Foi por atos sociais de iniqüidade e injustiça deste gênero que Deus tratou com os amorreus antes deles (Am 2.9,10).
Isaías acusa sua audiência de negligenciar justiça e retidão (Is 1.17; 5.7). Ele vê o rico como egoísta (Is 1.15,16). Os líderes são negligentes (Is 1.23),enquanto que os líderes políticos se voltam para as nações pagãs em redor deles para sua segurança militar, em vez de buscar a ajuda de Javé (Is 30.1,2).
Poucos capítulos na Bíblia são tão francos sobre a tentativa de substituição da religiosidade e do formalismo do culto pela prática religiosa que exibe preocupação pelo bem-estar dos outros como Isaías 58.1-12. Enquanto o povo finge ter hábitos corretos na adoração, conhecimento correto de Deus, práticas corretas e liturgia, especialmente como evidenciado nos seus dias de jejum, Isaías não aceita nada disso. Ele observa as pessoas fazerem o que elas querem nos dias de jejum, disputando uma com as outras, tramando maneiras de tirar mais proveito do público, e falta de compaixão pelo próximo e, no entanto, eles ainda esperam ser ouvidos por Deus.
Entretanto, se eles quisessem observar o tipo de jejum que é agradável a Deus eles poderiam começar por soltar as cadeias da injustiça e contrato injustos que eles fizeram com o próximo. Eles poderiam alimentar os famintos, dar abrigo aos sem-teto, vestir os maltrapilhos, e especialmente cuidar de seus parentes. Somente então, a cura voltaria para eles a retidão seguiria na sua frente. Então eles clamariam a Deus e ele diria “Eis-me aqui” (Is 58,9), semelhante À maneira como os mortais devem normalmente responder a Deus.
Está claro que a espiritualidade não pode ser usada ou comercializada como uma desculpa para não se preocupar com as necessidades do pobre, do oprimido, do faminto, do sem-teto, do órfão, da viúva, ou mesmo dos parentes próprios. Mesmo assim, os profetas não foram revolucionários no sentido comum do termo. Conquanto eles chamassem à mudança na estrutura social, eles não faziam isto tentando derrubar ou abater as instituições injustas dos seus dias como sua ofensa de primeira linha. Em vez disso, ele queriam que ocorresse uma mudança na sociedade por meio da mudança que foi operada na vida dos indivíduos. Mais uma vez, a essência do desafio aos seus ouvintes foi: Volta, retorna para o Senhor”.
Estou escrevendo este artigo enquanto a UNESCO publica um relatório em que mais de 800.000.000 (oitocentos milhões) de pessoas no mundo passam fome. E enquanto escrevo essas linhas algumas dezenas delas já morreram por inanição. Por outro lado, vemos as grandes potências gastando bilhões e bilhões de dólares com guerras e terrorismo. Verbas públicas sendo desviadas para particulares aos milhões. Denúncias de ‘mensalões’, ‘mensalinhos’, dólares na cueca, propinas e corrupção generalizada. A lista não tem fim. Onde estão os profetas??? A voz que vem do gólgota dos profetas do antigo ainda ecoa e não pode ser ofuscada: “Lavai-vos, purificai-vos; tirai de diante dos meus olhos a maldade dos vossos atos; cessai de fazer o mal; aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, acabai com a opressão, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva” Is 1.16,17. Ainda vaticina, o profeta: “Os pecadores de Sião se assombraram; o tremor apoderou-se dos ímpios. Quem dentre nós pode habitar com o fogo consumidor? quem dentre nós pode habitar com as labaredas eternas? Aquele que anda em justiça, e fala com retidão; aquele que rejeita o ganho da opressão; que sacode as mãos para não receber peitas; o que tapa os ouvidos para não ouvir falar do derramamento de sangue, e fecha os olhos para não ver o mal; este habitará nas alturas; as fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio; dar-se-lhe-á o seu pão; as suas águas serão certas” (Is 33.14-16).
Queira Deus que nesta nossa geração surjam profetas, que à despeito das facilidades que muitos apregoam ser o evangelho, estejam dispostos a ‘tocar a trombeta’ sobre o juízo de Deus contra toda maldade na terra!
OS PROFETAS AGONIZAM:
ouçam a voz do Senhor, que diz: A quem enviarei, e quem irá por nós? (Is 6.8).